Numa empresa de eficiência energética, o produto é uma poupança que tem de ser provada: o consumo antes, a medida, o consumo depois e a diferença, corrigida pela produção e pelo clima. Quando esses dados vivem em folhas de cálculo e faturas digitalizadas, cada relatório dá trabalho e cada contrato de desempenho é um risco. Este guia é para quem dirige uma consultora de energia, uma ESCo, uma empresa de gestão técnica de edifícios ou uma equipa de certificação energética em Portugal, e explica o que um software à medida deve tratar, que regras interessam e quanto custa. Escrevemo-lo como quem constrói este software e, onde temos, mostramos um exemplo em vídeo.

Cabem aqui quatro tipos de negócio, muitas vezes na mesma empresa:

  • Auditoria e gestão de energia em instalações industriais, comerciais e de serviços, com plano de medidas.
  • ESCo (empresas de serviços energéticos), que implementam medidas e são pagas, total ou parcialmente, pelas poupanças.
  • Gestão técnica de edifícios (BMS): climatização, iluminação, águas quentes e alarmes.
  • Certificação energética de edifícios, feita por peritos qualificados.

Consumos, curvas de carga e auditorias

Uma auditoria começa pelas faturas (eletricidade, gás, gasóleo) de vários anos, segue para o levantamento dos equipamentos e para medições com analisadores de rede e registadores, e acaba num plano de medidas. O software deve importar as faturas e as leituras dos contadores, quando o equipamento o permite ou por exportação, guardar os registos por equipamento ou por setor e desenhar a curva de carga, que é onde o desperdício aparece primeiro:

Curva de carga: um dia útil antes e depois das medidas02004006000h6h12h18h23hkWConsumo de base de noite: 175 kW → 92 kW
Antes (média de março)Depois (média de maio)Diferença
Energia por dia, antes9.732 kWh
Energia por dia, depois7.699 kWh
Diferença−21 %
A curva mostra onde está o desperdício antes de se falar em equipamento. O consumo de base durante a noite (compressores a alimentar fugas de ar, iluminação e climatização ligadas) é muitas vezes a primeira medida. Para comparar antes e depois com rigor, é preciso corrigir pela produção, pelo clima e pelos dias úteis; o software guarda essas variáveis com as leituras. A fábrica e os valores do exemplo são fictícios.
Exemplo hipotético de uma fábrica, com curvas médias fictícias.
  • Faturas e leituras por instalação e por contador, com a tarifa e a potência contratada.
  • Variáveis de correção: produção, graus-dia, horas de funcionamento, para que o antes e o depois sejam comparáveis.
  • Fichas de auditoria por tipo de instalação, com fotografias e medições.
  • Alertas de consumo anómalo, como um consumo de base a subir num fim de semana. Num exemplo que fizemos para o setor do ambiente e sustentabilidade, com uma fábrica fictícia, a água corre com a fábrica parada e a técnica cria uma tarefa para a manutenção.

Plano de medidas e poupanças verificadas

O plano ordena as medidas pelo retorno e, sobretudo, separa o estimado do verificado. A poupança verificada exige um método acordado (período de referência, variáveis de ajuste, duração da medição), e é esse método que o software deve registar com cada medida. Nos contratos de desempenho energético, a remuneração da ESCo depende disso, por isso convém seguir um protocolo reconhecido de medição e verificação e escrevê-lo no contrato.

Plano de medidas: investimento, poupança e retorno
MedidaInvestimentoPoupança estimadaRetorno simples
Eliminar fugas de ar comprimidoVerificada: 3.700 €/ano
2.500 €4.100 €/ano
0,6 anos
Isolar tubagem de vaporPor implementar
4.800 €3.000 €/ano
1,6 anos
Iluminação LED na naveVerificada: 7.500 €/ano
18.000 €7.200 €/ano
2,5 anos
Variador no compressorPor implementar
15.400 €5.600 €/ano
2,8 anos
Recuperar calor do compressorPor implementar
32.000 €6.400 €/ano
5,0 anos
Investimento total72.700 €
Poupança estimada26.300 €/ano
Medidas verificadas2 de 5 · 11.200 € face a 11.300 € estimados
O plano ordena as medidas pelo retorno, e depois mede o que de facto se poupou. Cada medida guarda o investimento, a poupança estimada na auditoria e, depois de implementada, a poupança verificada com o método acordado com o cliente. O retorno simples não inclui juros nem manutenção. Os valores do exemplo são fictícios.
Exemplo hipotético de um plano de medidas de uma auditoria, ordenado pelo retorno simples, com valores fictícios.

SGCIE e auditorias obrigatórias

As instalações com consumo de energia igual ou superior a 500 tep/ano estão abrangidas pelo Sistema de Gestão dos Consumos Intensivos de Energia (SGCIE), previsto no Decreto-Lei n.º 71/2008, alterado pela Lei n.º 7/2013 e pelo Decreto-Lei n.º 68-A/2015. Implica registo, auditorias periódicas e um Plano de Racionalização dos Consumos de Energia (PRCE) com metas de redução da intensidade energética e do consumo específico, e relatórios de execução e progresso. Segundo a DGEG, a periodicidade das auditorias e as metas dependem do escalão de consumo (por exemplo, auditorias de oito em oito anos e metas de 4 % ou 6 %).

  • Registo das instalações abrangidas e prazos de cada uma.
  • PRCE com medidas, investimento, poupança em tep e prazo, e o estado de cada medida.
  • Indicadores de intensidade energética e consumo específico por ano, face às metas.
  • Prazos de reporte com alertas, para não falhar entregas.

O Decreto-Lei n.º 68-A/2015 também prevê auditorias energéticas periódicas para grandes empresas fora do SGCIE, e a diretiva europeia de eficiência energética revista (Diretiva (UE) 2023/1791) muda os critérios, passando a olhar para o consumo e não para a dimensão da empresa. A sua transposição pode mudar quem está abrangido; confirme as regras em vigor na DGEG e na ADENE antes de fixar o software numa delas.

Certificação energética de edifícios

O Sistema de Certificação Energética dos Edifícios (SCE), previsto no Decreto-Lei n.º 101-D/2020, classifica os edifícios de A+ a F. O certificado é emitido por um perito qualificado, no portal do SCE gerido pela ADENE, e é exigido, por exemplo, na venda e no arrendamento. A validade é, em regra, de 10 anos para habitação e pequenos edifícios de comércio e serviços, e mais curta para os grandes; confirme no diploma em vigor.

Certificado energético: classe, medidas e processo
Classe energética
A+
A
BCom as medidas
B-
CAtual
D
E
F
Processo deste certificado
Pedido e documentos
Visita ao imóvel
Levantamento: envolvente e sistemas
Cálculo do desempenho
Registo no portal do SCE
Certificado entregue
Medidas propostasIsolamento da cobertura · janelas com vidro duplo · bomba de calor para águas quentes
ValidadeO sistema guarda a data e avisa o cliente antes do fim, para renovar antes de vender ou arrendar.
O certificado é emitido pelo perito qualificado no portal do SCE; o software trata do resto. Pedido, documentos, fotografias e dados da visita, cálculo e prazos ficam num só sítio, e a emissão continua a ser feita no sistema oficial. O imóvel, a classe e as medidas do exemplo são fictícios.
Exemplo hipotético de um certificado de uma moradia, com classe e medidas fictícias.

O cálculo faz-se em ferramentas reconhecidas e a emissão no portal oficial. O que o software à medida acrescenta é a gestão do pedido: documentos, agendamento da visita, fotografias e dados do levantamento, estado do processo, faturação e aviso de validade aos clientes.

ESCo, BMS e projetos de instalação

  • Contratos de desempenho: medidas, investimento, poupança garantida ou partilhada, método de verificação, prazo e relatórios periódicos ao cliente.
  • Manutenção de BMS: plano de visitas, pontos de controlo, alarmes e relatórios mensais ao gestor do edifício. Num exemplo que fizemos para uma empresa de energia fictícia, cada ocorrência mostra o tempo que conta para o prazo do contrato. Veja também o guia de software para empresas de AVAC e climatização.
  • Projetos de instalação (iluminação, variadores, recuperação de calor, solar): orçamento, prazos, subempreiteiros e medições antes e depois. Quando a intervenção é uma empreitada com autos de medição, veja o guia de gestão de obras.
  • Autoconsumo e comunidades de energia renovável: produção, consumo e repartição entre participantes, com regras próprias (Decreto-Lei n.º 15/2022) a confirmar com a DGEG. No mesmo exemplo, um inversor parado abre ocorrência no contrato, com dados do portal de cada fabricante, se der acesso, ou por exportação.

Emissões de gases com efeito de estufa

Muitos clientes pedem a pegada de carbono (âmbitos 1, 2 e 3) a partir dos mesmos consumos. O software pode calcular as emissões com fatores de emissão guardados por ano e por fonte, desde que se indique a origem de cada fator e se atualizem quando são revistos. Para relatórios de sustentabilidade, veja também o guia de consultoria ambiental.

Indicadores que vale a pena seguir

  • Poupança verificada face à estimada, por medida e por cliente.
  • Medidas do PRCE implementadas dentro do prazo.
  • Intensidade energética dos clientes SGCIE face às metas.
  • Certificados emitidos, em curso e por renovar.
  • Receita recorrente (monitorização, manutenção) face à de projetos.

Programa pronto ou à medida?

A recomendação é nossa: se o caso for simples, comece por um programa pronto. O à medida faz sentido quando se reconhecer nestes pontos:

  • Poucos clientes e relatórios iguais: um programa pronto pode bastar.
  • Cada contrato de desempenho tem o seu método de verificação e a remuneração depende dele.
  • Dados espalhados por contadores, portais de fabricantes e folhas de cálculo: costumamos ligar por API quando o programa dá acesso, ou por exportação.
  • Várias áreas na mesma empresa, cada uma com a sua folha.

Quanto custa

  • Automação pontual (relatório mensal de poupanças a partir das leituras, aviso de validade de certificados, alerta de consumo anómalo): a partir de €300.
  • Dashboard com consumos, poupanças estimadas e verificadas e prazos SGCIE: a partir de €500.
  • Aplicação web com auditorias, planos de medidas, contratos de desempenho e processos de certificação: a partir de €800.
  • App mobile para o técnico registar equipamentos, medições e fotografias na visita: a partir de €2.500.
  • Manutenção mensal: a partir de €50.
  • Integrações com contadores, plataformas de monitorização e BMS, se derem acesso, e sistemas completos: orçamos caso a caso.

São pontos de partida: o preço final fixa-se na proposta. Antes de pedir propostas, veja quanto tempo leva hoje um relatório de poupanças e de onde vêm os dados.

O que perguntar a um fornecedor

  • Como compara o consumo antes e depois de cada medida, e com que variáveis de ajuste?
  • Que contadores, registadores e plataformas de monitorização consegue ler?
  • Como guarda o método de verificação de cada contrato de desempenho?
  • Como acompanha prazos e metas do SGCIE, e quem atualiza os modelos quando as regras mudam?
  • Onde ficam guardados os dados dos clientes e como os exporto se mudar de fornecedor?
  • Quais são os custos ao fim de três anos?

Por onde começar

Comece pela base: faturas e leituras por instalação, com a curva de carga e as variáveis de ajuste. O plano de medidas com poupança verificada vem a seguir, e a gestão de certificados e de contratos de desempenho por último.

Na Soluções à Medida fazemos software para empresas de eficiência energética: começamos pelo processo mais repetitivo e orçamos caso a caso. Contacte-nos e conte-nos como trabalha hoje. Veja também as soluções para energia, o guia de empresas de inspeção, ensaios e certificação e os exemplos por setor.