Um centro de informática vive do balcão: entram portáteis, telemóveis e impressoras com avarias, sai equipamento reparado ou vendido, e pelo meio há peças encomendadas, orçamentos por aprovar e clientes a perguntar «já está pronto?». Este guia é para quem gere uma loja de reparação e venda de informática em Portugal e hesita entre um programa pronto e um à medida. Escrevemo-lo como quem constrói este tipo de software: o que deve tratar, que regras interessam, quando um programa pronto chega e quanto custa, com exemplos em vídeo. Se faz sobretudo suporte contratado a empresas, veja o guia de software para empresas de suporte técnico e MSP; se faz projetos e consultoria, o de software para consultoras de IT.

A ordem de reparação

Tudo começa na receção. O que o cliente diz («não liga») raramente é o diagnóstico, e a diferença de custo entre um e outro é grande. Por isso a ordem de reparação deve guardar, desde o primeiro minuto:

  • Identificação do equipamento: marca, modelo e número de série, que liga a reparação ao histórico e às garantias.
  • Sintoma descrito pelo cliente e, depois, o diagnóstico do técnico, separados.
  • Estado na receção, com fotografias de riscos e danos que já existiam.
  • Acessórios entregues (carregador, mala, cartão de memória).
  • O que o cliente autoriza fazer aos dados: cópia de segurança, reinstalação, acesso com palavra-passe.
  • Prazo estimado e condições de levantamento, no talão que o cliente leva.
Ordem de reparação: do balcão à entrega
Ordem de reparaçãoOR-26-0815
EquipamentoPortátil 14″, série PF3K-27X1
ClienteParticular · ficha 2210
Sintoma descrito pelo cliente«Não liga»
Diagnóstico do técnicoConector de carga partido; bateria sem defeito
Estado na receção2 riscos na tampa e canto amolgado, com 3 fotografias
Acessórios entreguesCarregador sim · mala não
DadosCópia de segurança: não autorizada · palavra-passe não pedida
Recebido02/10
Diagnóstico03/10
Orçamento enviado03/10
Aprovado04/10
Aguarda peçahoje
Em reparação
Pronto
Entregue
Peça prevista para 13/10, depois do prazo prometido (6 dias úteis, 12/10)O cliente foi avisado por SMS às 10:12, e o aviso fica registado na ordem.
A ordem de reparação é o documento que resolve as discussões. Guarda o que o cliente disse, o que o técnico encontrou, o estado em que o equipamento entrou, o que foi entregue e o que o cliente autorizou fazer aos seus dados. Cada mudança de estado tem data e, quando atrasa, aviso. O equipamento, o cliente e as datas do exemplo são fictícios.
Exemplo hipotético de uma reparação ao balcão, com equipamento e datas fictícios.

Os estados seguintes (diagnóstico, orçamento enviado, aprovado ou recusado, aguarda peça, em reparação, pronto, entregue) devem ter data, e o cliente deve ser avisado quando o prazo prometido não vai ser cumprido. O registo da aprovação do orçamento evita a discussão mais comum ao balcão. Num exemplo que fizemos para uma loja de eletrodomésticos, fictícia, o orçamento de 68 € segue por SMS, o cliente aceita pela ligação e é avisado quando a reparação fica pronta.

Dados pessoais nos equipamentos

Um portátil ou um telemóvel em reparação está cheio de dados pessoais do cliente, e por vezes de terceiros. O técnico só deve aceder ao que a reparação exige. Boas regras para pôr no software e no talão:

  • Pedir a palavra-passe só quando é indispensável, e não a guardar na ordem depois de usada.
  • Fazer cópia de segurança apenas com autorização registada, e apagá-la depois da entrega, num prazo definido.
  • Registar quem trabalhou no equipamento.
  • Nos discos substituídos que ficam na loja, definir o que se faz aos dados (devolução ao cliente ou destruição, com registo).

Estes pontos decorrem do RGPD, mas a forma concreta (consentimento, prazos de conservação, quem pode aceder) deve ser validada com quem trata da proteção de dados da empresa.

Peças, fornecedores e margem

As peças de reparação têm muitas referências quase iguais: duas baterias de modelos vizinhos do mesmo portátil podem não ser compatíveis. O software deve ligar cada peça encomendada à ordem que a pediu, registar custo e fornecedor, e dar baixa ao stock quando a peça é usada. Só assim se sabe quanto rende cada reparação. No mesmo exemplo fictício, duas reparações que usam a mesma bomba de escoamento entram numa só encomenda ao fabricante.

Peças por ordem de reparação e margem
OrdemPeçaCustoPreçoMão de obraMargem
OR-0815Conector de carga9,80 €24,00 €0,75 h · 30,00 €44,20 €
OR-0821SSD 1 TB + migração de dados62,00 €89,00 €1,5 h · 60,00 €87,00 €
OR-0826Ecrã de portátil 15,6″71,00 €119,00 €1,0 h · 40,00 €88,00 €
OR-0830Bateria em garantia48,00 €sem custo0,5 h · em garantiaa recuperar
OR-0830: bateria trocada em garantiaA peça defeituosa volta ao fornecedor com o número da ordem. O custo de 48,00 € só se recupera quando chegar a nota de crédito, que está pendente há 12 dias.
Peças vendidas (3 ordens)232,00 €
Custo das peças (4 ordens)190,80 €
Mão de obra faturada130,00 €
A margem de uma reparação é peça mais mão de obra, menos o que fica por recuperar. Cada peça encomendada nasce de uma ordem e volta a ela, com custo e fornecedor. As peças em garantia ficam em aberto até o fornecedor as creditar. Preços, custos e a taxa horária de 40,00 € do exemplo são fictícios e sem IVA.
Exemplo hipotético de quatro ordens com peças, mão de obra e uma garantia, com valores fictícios.
  • Stock mínimo só para as peças que rodam (baterias e ecrãs dos modelos mais comuns); o resto encomenda-se por ordem.
  • Peças em garantia do fornecedor: devolução com o número da ordem e acompanhamento da nota de crédito.
  • Venda ao balcão de equipamento, periféricos e consumíveis no mesmo stock, com faturação por programa certificado. Veja o guia de faturação eletrónica em Portugal.

Garantias: o que se vende e o que se repara

Nos bens novos vendidos a consumidores, a garantia legal é, em regra, de três anos (Decreto-Lei n.º 84/2021). Quando um bem é reparado ao abrigo dessa garantia, o prazo é alargado em seis meses por cada reparação, até ao limite de quatro reparações, e o consumidor deve ser informado disso na entrega. O software deve, por isso, distinguir:

  • Reparações dentro da garantia legal de um bem vendido pela loja, sem custo para o consumidor, e com o alargamento do prazo registado.
  • Reparações pagas, com a garantia que a loja dá ao seu trabalho e às peças, definida nas condições.
  • Equipamentos enviados para o serviço autorizado da marca, com a data de envio e de regresso.

No exemplo fictício que preparámos, o número de série encontra a venda e mostra que o aparelho está dentro da garantia legal, e a reparação abre ligada a essa venda.

Os bens usados e recondicionados têm regras próprias, e há pormenores do diploma que geram dúvidas. Confirme o regime aplicável a cada caso com um jurista ou com as fontes oficiais.

Equipamentos por levantar

Todas as lojas têm equipamentos prontos que ninguém vem buscar. Ocupam espaço, muitas vezes estão por pagar e podem conter dados pessoais. O software deve contar os dias desde que a reparação ficou pronta e enviar os avisos que a política da loja prevê, com prova de envio.

Equipamentos prontos e por levantar
1.º aviso2.º avisoCarta registada
OR-0702 · TelemóvelPago
12 dias
OR-0688 · PortátilPor pagar
27 dias
OR-0651 · ImpressoraPor pagar
44 dias
OR-0617 · PortátilPago
63 dias
OR-0590 · Torre de secretáriaPor pagar
95 dias
OR-0544 · TabletOrçamento recusado
121 dias
Por levantar6 equipamentos
Por receber3 reparações
Passaram os 90 dias2 · decidir com o jurista
Um equipamento esquecido ocupa espaço e pode ter dados pessoais. O sistema conta os dias desde que a reparação ficou pronta e envia os avisos que a política da loja prevê, guardando prova de cada um. Os prazos do exemplo são da política da loja, não da lei: o que fazer a um equipamento não levantado deve estar no talão de receção e ser validado por um jurista. As ordens e os dias do exemplo são fictícios.
Exemplo hipotético de seis equipamentos por levantar, com prazos de aviso definidos pela loja.

Não encontrámos uma regra legal específica sobre prazos para equipamentos não levantados numa reparação. O que a loja pode fazer (reter até ao pagamento, cobrar armazenagem, dar outro destino) depende das condições aceites no talão e da lei geral, e deve ser definido com um jurista antes de ser posto em prática.

Resíduos elétricos e retoma

Quem vende equipamento elétrico e eletrónico tem obrigações de retoma. Em regra, o comerciante tem de aceitar gratuitamente, de um particular, um equipamento usado equivalente quando vende um novo (um por um). As lojas com pelo menos 400 m² de área de venda destes equipamentos têm também de aceitar equipamentos muito pequenos (até 25 cm) sem obrigação de compra (Decreto-Lei n.º 152-D/2017, com as alterações de 2020). As peças e equipamentos retirados na reparação seguem para operadores licenciados, com o registo de resíduos aplicável. Confirme as regras em vigor e o seu caso com a APA ou com a entidade gestora.

Indicadores que vale a pena seguir

  • Tempo médio por fase: da receção ao diagnóstico, do orçamento à aprovação, da peça à entrega.
  • Orçamentos recusados e motivos.
  • Margem por reparação, com peças, mão de obra e peças em garantia por recuperar.
  • Reparações que voltam pelo mesmo problema.
  • Equipamentos por levantar e valor por receber.

Programa pronto ou à medida

A recomendação é nossa:

  • Vende mais do que repara, com poucas ordens por dia: um programa pronto de faturação com gestão de reparações chega. Fique com ele.
  • Os clientes ligam a perguntar pelo estado: pode bastar uma automação de avisos sobre o programa que já tem, ligada por API se der acesso ou por exportação.
  • Garantia legal, reparações pagas e envios à marca são contados à mão: aí faz sentido à medida.
  • Peças por ordem e margem por reparação vivem numa folha de cálculo: também é caso de à medida.

Quanto custa

  • Automação pontual (aviso de equipamento pronto por SMS ou e-mail, aviso de prazo ultrapassado, lembretes de levantamento): a partir de €300.
  • Dashboard com ordens por estado, tempos, margem e equipamentos por levantar: a partir de €500.
  • Aplicação web com ordens de reparação, fotografias, peças por ordem e garantias: a partir de €800.
  • App mobile para a receção com fotografias e assinatura do cliente no tablet: a partir de €2.500.
  • Manutenção mensal: a partir de €50.
  • Ponto de venda com faturação certificada, ligação a fornecedores e sistemas completos de loja: orçamentamos caso a caso.

O preço final fixa-se na proposta. Antes de pedir propostas, conte durante um mês as perguntas «já está pronto?», os orçamentos sem resposta e os equipamentos na prateleira: esses números mostram por onde começar.

O que perguntar a um fornecedor

  • A ordem de reparação guarda o sintoma, o diagnóstico, as fotografias e as autorizações sobre dados?
  • Como avisa o cliente das mudanças de estado e dos atrasos?
  • Como liga as peças encomendadas à ordem e calcula a margem?
  • Como distingue reparações em garantia legal, pagas e enviadas à marca?
  • Como se liga ao meu programa de faturação certificado e ao ponto de venda?
  • Como exporto os dados se mudar de fornecedor, e quais são os custos ao fim de três anos?

Por onde começar

Comece pela ordem de reparação com fotografias e estados, e pelos avisos ao cliente. A ligação das peças à ordem e os equipamentos por levantar vêm a seguir.

Na Soluções à Medida fazemos software para centros de informática e lojas de reparação: começamos pelo processo mais repetitivo e orçamos caso a caso. Contacte-nos para uma conversa sem compromisso. Veja também as soluções para informática e tecnologia, as soluções para eletrónica e eletrodomésticos e os exemplos por setor.