O software certo para uma consultora de IT em Portugal liga num só sítio o que decide a margem de quem vende horas de pessoas qualificadas: quem está alocado a quê, quantas horas um projeto consome face ao que foi vendido, e o que o comercial está prestes a vender sem saber se há gente para o fazer. Quando as horas estão numa ferramenta, os contratos noutra, a faturação num programa certificado e a pipeline numa folha de cálculo, ninguém consegue dizer no fim do mês quanto rendeu cada projeto. Este guia é para quem dirige uma consultora de IT boutique ou de média dimensão em Portugal (desenvolvimento, cloud, dados, cibersegurança, nearshore). Escrevemo-lo como quem constrói estes sistemas e, onde temos exemplo em vídeo, mostramo-lo. Cobre o que ligar, que regras interessam, quando a prateleira chega e quanto custa.

O guia pensa em consultoras que vendem projetos e equipas por preço fixo, por tempo e materiais ou por bolsa de horas. Para suporte e gestão de IT de PME, com tickets e monitorização, o mais indicado é o guia de software para suporte técnico e MSP; para reparação e venda de equipamento ao balcão, o de software para centros de informática; para consultoria de gestão sem desenvolvimento, o de software para consultoras de gestão. Em qualquer caso, a ideia é ligar os dados sem largar ferramentas que funcionam, como o Jira, nem substituir o programa de faturação certificado.

Alocação de consultores e capacidade

A alocação é o centro de uma consultora. Cada consultor tem competências (linguagens, plataformas cloud, certificações), um custo interno (salário, encargos e estrutura) e uma percentagem da semana alocada a cada projeto. Sem esta vista, o mesmo sénior é prometido a dois clientes, ou fica três semanas sem projeto sem que ninguém repare.

Alocação de consultores, semana a semana
S1S2S3S4S5S6S7S8
Ana · arquiteta cloud
100%A
100%A
130%A+B
100%A
60%A
40%—
40%—
40%—
Bruno · sénior .NET
100%C
100%C
100%C
100%C
100%C
100%C
80%C
80%C
Carla · dados
50%D
50%D
50%D
20%D
20%D
0%—
0%—
0%—
Diogo · júnior
100%C
100%C
100%C
100%C
100%C
100%C
100%C
100%C
Proposta B60 % de probabilidade
2 sénior
2 sénior
2 sénior
2 sénior
Acima de 100 %80–100 %40–79 %Abaixo de 40 %
S3: Ana em dois projetos (130 %)O gestor decide antes de prometer datas.
S6–S8: Ana e Carla com capacidade livreSe a proposta B fechar, pede 2 sénior a partir da S5: há uma parte da capacidade, falta o resto.
A alocação mostra o conflito e a folga antes de acontecerem. Cada célula é a percentagem da semana alocada a projetos (A, B, C, D), e a linha da proposta mostra o que o comercial está prestes a vender. Os consultores, os projetos e as percentagens do exemplo são fictícios.
Exemplo hipotético de quatro consultores em oito semanas, com projetos e percentagens fictícios.
  • Alocação por semana e por projeto, com conflitos (acima de 100 %) e folgas assinalados.
  • Competências e certificações com validade, para concursos e parceiros tecnológicos.
  • Procura prevista: perfis pedidos pelas propostas em curso, com data de início, cruzados com a capacidade livre.
  • Ausências (férias, formação) refletidas na capacidade, não descobertas na véspera.

Timesheet, margem e tipo de contrato

O timesheet só é útil se for preenchido todos os dias ou semanas e validado pelo gestor de projeto. No exemplo que fizemos para uma consultora fictícia, a semana chega como rascunho feito das reuniões da agenda: a chamada de 30 minutos passa a 1 h, juntam-se 2 h de revisão de relatório e as 7,5 h são submetidas por três contratos. Depois, o sistema compara as horas com o que foi vendido, conforme o contrato:

Preço fixo ou tempo e materiais: as horas contam de maneira diferente
Preço fixo · portal de encomendas
0 h200 h400 h0S1S2S3S4S5S6Orçamento: 400 hProjeção: 517 h310 h gastas60 % feito = 240 h
Ao ritmo atual, faltam 117 h que ninguém paga. É agora que se renegocia o âmbito.
Tempo e materiais · bolsa de suporte
0 h100 h200 h0Mês 1Mês 2Mês 3Mês 4Bolsa: 200 h3070115160Zona de alerta: 80 %
160 de 200 h consumidas: o cliente e o gestor de conta são avisados para renovar ou ampliar.
O mesmo registo de horas diz coisas diferentes consoante o contrato. No preço fixo, compara-se o que se gastou com o que se entregou; em tempo e materiais, compara-se o consumido com o que o cliente aprovou. Projetos, horas e limites do exemplo são fictícios.
Exemplo hipotético de dois contratos, com horas e limites fictícios.
  • Preço fixo: horas gastas face ao trabalho entregue. Um desvio cedo é o primeiro sinal de prejuízo e a altura de renegociar o âmbito ou tratar a mudança como pedido adicional.
  • Tempo e materiais: horas faturáveis face ao que o cliente aprovou, com aviso antes de chegar ao limite.
  • Bolsa de horas ou retainer: cada intervenção desconta do saldo, e o cliente e o gestor de conta são avisados antes de acabar.
  • Custos diretos: licenças, viagens e subcontratados entram na margem do projeto, e não só as horas.

Se a equipa já usa o Jira ou outra ferramenta para tarefas e sprints, costumamos ler as horas daí quando a ferramenta dá acesso, ou por exportação, em vez de pedir um segundo registo. A metodologia fica na ferramenta da equipa; o sistema de gestão só precisa das horas, do projeto e da fase.

Pipeline de propostas e recrutamento

A pipeline guarda as oportunidades com valor, probabilidade e data, como em qualquer empresa. Numa consultora há um campo que faz a diferença: os perfis que cada proposta exige, e a partir de quando. É isso que antecipa a contratação ou a subcontratação.

Pipeline de propostas, com os perfis que cada uma pede
Qualificação
Migração cloud
48.000 €30 %
1 arquiteto · S9
Proposta enviada
Dados e BI
25.000 €40 %
1 dados · S6
Portal B2B
72.000 €60 %
2 sénior · S5
Negociação
Suporte 12 meses
36.000 €80 %
1 júnior · S4
Ganho
App de inspeções
30.000 €100 %
Equipa C
Valor em aberto181.000 €
Ponderado pela probabilidade96.400 €
Perfis pedidos sem capacidade livre2 sénior a partir da S5
A pipeline serve as vendas e o recrutamento. Cada proposta leva valor, probabilidade e os perfis de que precisa a partir de que semana, e o sistema cruza isso com a alocação. A probabilidade é a do comercial, revista em cada reunião. As propostas e os valores do exemplo são fictícios.
Exemplo hipotético de cinco propostas, com valores e probabilidades fictícios.

O recrutamento nas áreas mais disputadas pode demorar meses, por isso a decisão de contratar deve partir da pipeline ponderada, e não da proposta já ganha. As parcerias tecnológicas (Microsoft, AWS, Google Cloud e outras) têm níveis e certificações exigidas que mudam e convém acompanhar no mesmo sistema.

Consultores no cliente: prestação de serviços ou cedência?

Muitas consultoras têm consultores a trabalhar nas instalações ou nas equipas do cliente. A fronteira legal importa: numa prestação de serviços, o consultor continua sob a direção da consultora, que responde pelo resultado. Se, na prática, é o cliente que dirige o trabalho do dia a dia, a situação pode ser vista como cedência de trabalhadores, que só é lícita nos casos previstos na lei (por exemplo, através de empresa de trabalho temporário licenciada). O Código do Trabalho prevê consequências pesadas para a cedência ilícita, incluindo a integração do trabalhador no utilizador e contraordenações para as duas empresas.

O software não resolve a questão jurídica, mas ajuda a documentá-la: contratos com âmbito e entregáveis, quem dá as instruções, relatórios de atividade por entregável e não só por presença. A redação dos contratos deve ser vista por um advogado de direito do trabalho.

Contratos, RGPD e faturação

  • Contratos e renovações: datas de fim, cláusulas de indexação, níveis de serviço e alertas com antecedência para o gestor de conta preparar a renovação. Veja o guia de gestão de contratos.
  • Contratos de suporte: na mesma consultora fictícia, um pedido por email tem primeira resposta em 25 minutos, dentro do SLA de 1 hora, e a 1,5 h gasta desconta da bolsa de 20 h, que o cliente vê a 70 % no resumo.
  • RGPD: quando a consultora acede a dados pessoais do cliente (bases de dados, sistemas em produção), atua em regra como subcontratante, e o artigo 28.º do RGPD exige um contrato que defina instruções, segurança, subcontratação e devolução ou eliminação dos dados no fim. O sistema deve guardar esse contrato por cliente e quem tem acessos a quê.
  • Faturação: horas, fases de projeto e retainers, emitidos por programa certificado pela AT. Nos serviços a empresas de outros países da UE, em regra é o cliente que autoliquida o IVA; fora da UE ou noutra moeda, o sistema deve gerir a moeda e a taxa de câmbio. Confirme o enquadramento de cada contrato com o contabilista e veja o guia de faturação eletrónica em Portugal.
  • Nearshore: fusos horários, idioma e integração nas ferramentas do cliente (Jira, Confluence, GitHub) fazem parte da operação, e as horas registadas devem bater com o que o cliente vê.

Indicadores de uma consultora de IT

  • Taxa de utilização: horas faturáveis sobre horas disponíveis, por consultor e por equipa. O alvo depende do perfil e deve ser fixado pela própria empresa, com a fórmula escrita.
  • Margem de contribuição por projeto: receita menos custos diretos, por tipo de projeto e por cliente. No mesmo exemplo fictício, a avença de 1.500 € fecha outubro com margem de −260 €, com 32 h a 55 €/h de custo interno.
  • Desvio em projetos de preço fixo: horas reais face às orçamentadas, no fecho de cada projeto.
  • Receita recorrente: suporte, retainers e subscrições, e o seu peso no total.
  • Renovação de contratos, comparada com o histórico da própria carteira.
  • Pipeline ponderada face à capacidade: perfis que vão faltar e quando.

Prateleira ou à medida

Há programas de prateleira de registo de horas e projetos que servem muitas consultoras. Se a equipa é pequena, vende sobretudo por tempo e materiais e fatura as horas sem ajustes, recomendamos começar por um deles. À medida compensa num destes casos:

  • Três modelos de contrato em simultâneo: preço fixo, tempo e materiais e bolsas de horas, cada um com a sua regra de margem e de faturação.
  • Margem feita à mão: tarefas no Jira, faturas no programa certificado e o cruzamento numa folha de cálculo no fim do mês.
  • Venda presa à capacidade: as propostas pedem perfis com data de início, e é preciso vê-los contra a alocação antes de prometer.
  • Custo interno só para a gestão: a margem por cliente tem de existir sem que a equipa veja o custo de cada perfil.

Quanto custa

  • Automação pontual (alerta de timesheets por preencher, aviso de bolsa de horas a acabar, alerta de renovação): a partir de €300.
  • Dashboard de utilização, margem por projeto e pipeline ponderada: a partir de €500.
  • Aplicação web com alocação, timesheet, contratos, margem e pipeline: a partir de €800.
  • App mobile para registo de horas e despesas: a partir de €2.500.
  • Manutenção mensal: a partir de €50.
  • Integrações com o Jira, ferramentas de monitorização, o programa de faturação ou sistemas do cliente, e sistemas completos: orçamento caso a caso.

O preço final fixa-se na proposta.

O que perguntar a um fornecedor

  • Como se calcula a taxa de utilização? Peça a fórmula por escrito, ajustável.
  • Como entram as horas (aplicação, Jira, folhas de cálculo) e quem valida?
  • Como trata preço fixo, tempo e materiais e bolsas de horas no mesmo sistema?
  • Como cruza a pipeline com a alocação?
  • O que fica fora da proposta e o que é integração orçada à parte?
  • Quem tem o código e os dados, e quanto custa o suporte depois da entrega?

Por onde começar

Começamos pelo processo mais repetitivo, aqui o timesheet validado com a margem por projeto, porque mostra onde se perde margem. Seguem-se a alocação semanal e, por fim, a pipeline com perfis e o portal do cliente. Vale a pena ter um primeiro módulo em produção, validado pela equipa no trabalho real, antes do sistema completo.

Se se reconheceu nos casos à medida, contacte-nos para uma conversa sem compromisso: orçamos caso a caso, com estimativa de custo e prazo. Veja também os exemplos de software para informática e tecnologia e para consultoria, e os exemplos por setor.