O setor têxtil e do vestuário é um dos mais antigos da indústria portuguesa, com forte presença no Norte, em particular no Vale do Ave. A gestão tem características próprias: coleções sazonais com prazos rígidos, cada artigo em dezenas de combinações de cor e tamanho, produção por encomenda ou por previsão, fios, tecidos e aviamentos, subcontratação e venda a grossistas, retalhistas ou ao consumidor final.
Um software de gestão para o setor têxtil e do vestuário junta o desenvolvimento de produto, a produção, o stock, as encomendas e a faturação. Escrevemos este guia como quem constrói este tipo de software e, onde temos exemplo em vídeo, mostramo-lo. Cobre cada área, o que exigir e como decidir entre prateleira e à medida.
Coleções e desenvolvimento de produto
- Ficha técnica: composição de fibras (a rotulagem têxtil na União Europeia segue o Regulamento (UE) n.º 1007/2011), aviamentos (botões, fechos, fitas, etiquetas), processo de fabrico (tecido ou malha, método de confeção, acabamentos), símbolos de conservação (norma ISO 3758) e custo por componente. No exemplo que fizemos para uma fábrica de calçado, fictícia, a subida da pele recalcula o custo por par: de 30,00 € para 33,75 € por m², o par passa de 24,10 € para 25,30 € e a margem de 46,4 % para 43,8 %. A mesma lógica pode servir para vestuário.
- Grade de cores e tamanhos: cada artigo existe numa matriz de cores e tamanhos. O sistema pode gerir um código e um stock por combinação e replicar os custos do artigo base.
- Amostras e aprovações: antes da produção em série é preciso saber que amostras foram enviadas, o que cada cliente aprovou e que correções pediu.
Produção têxtil
- Planeamento: a partir das encomendas firmes e das previsões, o plano indica as quantidades por artigo, cor e tamanho, as matérias-primas necessárias, a partir das fichas técnicas e do aproveitamento do tecido, e o calendário por secção: corte, confeção, acabamento e embalagem.
- Ordens de fabrico: cada lote indica o artigo, a quantidade, as matérias-primas a consumir e os tempos padrão por operação, base do custo de mão de obra e da eficiência. Na fábrica de calçado fictícia, as ordens mostram, tamanho a tamanho, o que já está costurado: 190 de 320 pares, que seguem numa entrega parcial. A mesma lógica pode servir para a confeção.
- Subcontratação: parte da produção passa por empresas de confeção, bordado, estamparia ou lavandaria. É crítico controlar o material entregue a cada uma, em quantidade e em valor, o estado das encomendas e a receção com controlo de qualidade.
- Controlo de qualidade: na receção das matérias-primas (cor, gramagem, encolhimento), durante a produção (medidas por tamanho) e no produto acabado (aspeto e etiquetagem). O registo das não conformidades e do seu tratamento mostra os custos de qualidade.
Encomendas e distribuição
- Encomendas de grossistas: encomendas por coleção com prazo de entrega, condições de pagamento e distribuição por referência, cor e tamanho. O sistema verifica o stock ou desencadeia a produção do que falta.
- Épocas e campanhas: as coleções vendem-se por épocas, com pré-encomendas bastante antes da estação e reposições durante ela. O sistema deve cobrir o ciclo: catálogo digital, recolha de encomendas, consolidação para a produção e faturação por entregas.
- Exportação: grande parte das empresas têxteis portuguesas exporta, e o software deve emitir fatura pró-forma, fatura comercial, lista de volumes e os certificados de origem que o destino exigir.
Rastreabilidade e sustentabilidade
A regulação europeia está a ficar mais exigente. O Regulamento (UE) n.º 1007/2011 exige a composição de fibras correta na etiqueta. O Regulamento do Ecodesign para Produtos Sustentáveis (ESPR) prevê o Passaporte Digital de Produto, um registo digital com composição, origem das matérias-primas, processo de fabrico e instruções de fim de vida. Os requisitos para os têxteis dependem de atos ainda a definir: acompanhe as datas oficiais.
Entretanto, os clientes internacionais já pedem rastreabilidade: de que fornecedor veio cada lote de fio ou tecido, com que processo foi tratado e que certificações se aplicam, como o GOTS (algodão orgânico), o Oeko-Tex Standard 100 (substâncias nocivas) ou o Bluesign (processos de tingimento). O software deve ligar cada lote de matéria-prima às ordens de fabrico, para responder a clientes e auditores.
Faturação e fiscalidade do setor
- IVA: os artigos têxteis e de vestuário estão à taxa normal (23% no continente), na venda a retalhistas e ao consumidor final.
- Exportações e vendas na UE: as exportações para fora da União Europeia estão isentas de IVA, com os documentos de exportação como prova. As vendas a clientes de outros Estados-Membros com número de IVA válido estão isentas em Portugal, com declaração recapitulativa. A classificação destas operações reflete-se no SAF-T (PT).
- Descontos: desconto de quantidade, de campanha e rappel anual, com as respetivas notas de crédito.
- Software certificado: a faturação deve sair de software certificado pela AT, e o SAF-T (PT) de faturação é comunicado mensalmente.
As regras fiscais podem mudar e dependem de cada operação, por isso confirme os casos concretos com o seu contabilista.
Agentes comerciais e showroom
As coleções distribuem-se muitas vezes por agentes comerciais, que representam a marca numa região e recebem comissão. O software deve registar o território e os clientes de cada agente, calcular as comissões, sobre o faturado, pagas após recebimento ou na encomenda, consoante o acordo, e dar ao agente acesso só aos seus clientes e encomendas. Na fábrica de calçado fictícia, as lojas encomendam num portal com o seu preço e a grelha de tamanhos, e a encomenda entra na fábrica com a comissão do agente registada. Nos showrooms e nas feiras internacionais, a recolha de encomendas deve funcionar sem rede e sincronizar depois.
Indicadores de gestão
- Eficiência por secção: produção real face à padrão, em unidades ou minutos, para encontrar estrangulamentos.
- Rendimento de matéria-prima: consumo real de tecido face ao teórico. Os desvios apontam perdas de corte ou não registadas.
- Rotação de matérias-primas: fio e tecido parados imobilizam capital e ficam obsoletos. O sistema pode listar o que não tem consumo há um número de meses que defina.
Prateleira ou à medida
- Prateleira: poucas cores e tamanhos, sem subcontratados. Aqui recomendamos um programa pronto com faturação certificada.
- À medida: a grade, a ficha técnica e as ordens vivem em folhas de cálculo.
- À medida: o material entregue a confeções ou lavandarias externas controla-se à mão.
- À medida: agentes e lojas encomendam por telefone ou email e alguém volta a escrever tudo.
Quanto custa
Um sistema completo, com produção, subcontratação e exportação, é orçamentado à medida: depende da dimensão da empresa e do que já usa. Para começar por partes, os patamares são: automação pontual, como o aviso de rutura de uma variante ou de atraso de um subcontratado, a partir de €300; dashboard de eficiência, consumo de tecido e rotação de stock a partir de €500; aplicação web para um processo, como a grade de cores e tamanhos ou a recolha de encomendas em feira, a partir de €800; app mobile para o chão de fábrica ou para os agentes a partir de €2.500; manutenção mensal a partir de €50. A ligação ao ERP ou ao programa de faturação é orçada caso a caso, por API ou exportação. O preço final fixa-se na proposta.
Veja os exemplos para calçado e têxtil e para serviços industriais, ou explore os exemplos por setor. As ordens de produção, a rastreabilidade de lote e a ligação a equipamento estão no guia de software para indústria e fabricação. Começamos pelo processo mais repetitivo. Contacte-nos para uma conversa sem compromisso.