Uma empresa de automação industrial faz duas coisas muito diferentes: projetos de integração, com engenharia elétrica e mecânica, programação de autómatos, testes e arranque, e depois o apoio a um parque de equipamentos instalados em vários clientes. O primeiro exige controlo de fases, de pendências e de documentação. O segundo, histórico por máquina, peças de reserva e prazos de resposta. Este guia é para quem integra sistemas de automação, fabrica equipamentos especiais ou presta assistência a robots e autómatos em Portugal, e ajuda a decidir entre prateleira e à medida. Escrevemos como quem constrói este tipo de sistema e, onde temos, mostramos um exemplo em vídeo.
Onde um software à medida ajuda, e onde não
A programação dos autómatos, dos sistemas de supervisão e dos robots continua a fazer-se nas ferramentas dos fabricantes. O que o software à medida acrescenta é a camada de gestão à volta: projetos, pendências, ativos instalados, peças, contratos de assistência e documentação. A ligação a equipamentos no cliente, para ler dados quando o equipamento o permite, é uma integração à parte, com decisões de segurança informática que o cliente tem de aprovar, e deve ser tratada como tal.
Projetos de integração: fases, pendências e portas
Um projeto típico passa por engenharia, aquisição de materiais, fabricação dos quadros, testes de aceitação em fábrica (FAT), instalação, testes de aceitação no cliente (SAT) e formação. Cada fase tem responsáveis internos e subempreiteiros, e as falhas aparecem nos testes. O sistema tem de ter a estrutura das fases, as listas de pendências com dono e gravidade, e regras de passagem de uma fase à seguinte. No exemplo que fizemos para um integrador fictício, os testes da FAT são marcados um a um e o que falha gera uma ação com reteste.
- Fases e tarefas com responsáveis, datas e documentos, incluindo subempreiteiros com acesso restrito ao que lhes diz respeito.
- Aquisição com os prazos de entrega dos fornecedores, porque um componente que demora meses decide o caminho crítico.
- Portal do cliente com o estado do projeto por fase, em vez de chamadas semanais.
- Horas e custos por projeto, comparados com o orçamento, e a faturação por marcos.
Dossier técnico e marcação CE
As máquinas colocadas no mercado europeu têm de cumprir a legislação de segurança de máquinas. Hoje, é a Diretiva 2006/42/CE, que será substituída pelo Regulamento (UE) 2023/1230, com aplicação a partir de janeiro de 2027. Um integrador que modifica substancialmente uma máquina, ou que monta um conjunto de máquinas, pode ficar com as obrigações de fabricante, incluindo avaliação de riscos, dossier técnico e declaração de conformidade. A avaliação de risco e a escolha das funções de segurança seguem normas como a EN ISO 13849 ou a IEC 62061, e a segurança de robots industriais a série ISO 10218 (e a ISO/TS 15066 para colaborativos), cujas versões foram ou estão a ser revistas, por isso confirme as versões em vigor. O software não emite a declaração de conformidade nem a marcação CE: guarda as versões e prepara a documentação que o fabricante ou o integrador assina.
- Versões e dependências dos documentos de cada projeto, com histórico de quem alterou o quê.
- Pendências de revisão quando um documento de que outros dependem muda.
- Zona de instalação: nos equipamentos para atmosferas explosivas (ATEX), o sistema regista a classificação de cada zona e o equipamento instalado, e lembra os requisitos antes de uma intervenção. A certificação e a adequação à zona são da responsabilidade de quem projeta e instala, e o software não as substitui.
Parque instalado: ficha, manutenção e histórico
Cada equipamento instalado num cliente tem ficha (modelo, versão de software, localização, documentação, parâmetros de referência), plano de manutenção preventiva por calendário, horas ou ciclos, e histórico de intervenções com causa, tempo e peças. O técnico que chega ao local, ou atende um pedido remoto, vê logo o que foi feito antes. No mesmo exemplo, a preventiva de um robô surge antes de vencer e a ordem de trabalho segue com as peças. Para a parte de manutenção em geral, veja o guia de software de manutenção (CMMS).
- Ordens de trabalho com diagnóstico, causa e custo, para faturar a assistência e analisar avarias por tipo de equipamento.
- Contratos de assistência com tempos de resposta e de resolução por contrato, avisos antes de falharem e um relatório mensal por cliente.
- Monitorização remota, quando o cliente a autoriza e a tecnologia o permite: leitura de parâmetros por protocolos industriais normalizados (como OPC UA, Modbus ou MQTT) e alertas para valores fora do intervalo definido pelo engenheiro. Depende do que o equipamento expõe e das regras de acesso do cliente. As redes industriais têm requisitos próprios de segurança informática (por exemplo, a série IEC 62443), e não devem ser abertas ao exterior sem a aprovação de quem as gere.
Peças sobressalentes: o tempo de entrega é o que manda
Componentes como servomotores, variadores, cartões de entradas e saídas ou codificadores podem ter prazos de entrega de semanas ou meses. Uma linha parada à espera de uma peça custa mais do que a peça. O que o sistema deve comparar é quantas semanas o stock cobre, pelo consumo histórico, com o prazo de entrega do fornecedor. No exemplo, um servomotor abaixo do mínimo mostra em que robôs com contrato está montado, e a encomenda sai antes de faltar.
- Catálogo por referência, fabricante e equipamentos compatíveis.
- Consumo por ordem de trabalho, por tipo de equipamento e por cliente.
- Alerta de encomenda quando a cobertura fica abaixo do prazo de entrega, com requisição preparada para o fornecedor.
- Stock crítico mínimo para as peças que param uma linha, definido pelo engenheiro, independentemente do consumo.
Indicadores que vale a pena seguir
- Pendências do FAT e do SAT abertas por gravidade, e tempo até fechar.
- Desvio de prazo e de horas por projeto e por fase.
- Tempo de resposta e de resolução contra o que cada contrato prevê.
- Avarias repetidas por equipamento e por causa.
- Peças com cobertura abaixo do prazo de entrega.
Prateleira ou à medida
- Poucos projetos e assistência pontual: na nossa opinião, um programa de prateleira chega.
- Testes, parque e peças em folhas separadas que têm de se ligar: aqui faz sentido à medida.
- Tempos de resposta diferentes por contrato, que um programa genérico não acompanha.
Quanto custa
- Automação pontual (alertas de manutenção por calendário, lembrete de contratos a renovar, relatório mensal por cliente): a partir de €300.
- Dashboard com projetos, pendências e parque instalado: a partir de €500.
- Aplicação web com projetos por fases, fichas de equipamentos, ordens de trabalho e stock de peças: a partir de €800.
- App mobile para o técnico no cliente, com histórico e registo da intervenção: a partir de €2.500.
- Manutenção mensal: a partir de €50.
- Ligação a equipamentos (OPC UA, Modbus, MQTT), manutenção preditiva, portal de cliente com documentação e integrações: orçamento caso a caso. O preço final fixa-se na proposta.
O retorno depende de onde a empresa perde hoje: pendências que se arrastam, linhas paradas à espera de peças, deslocações sem histórico. Meça um deles nos últimos seis meses antes de pedir propostas.
O que perguntar a um fornecedor
- O que propõe construir, e o que recomenda manter nas ferramentas de programação dos fabricantes?
- Como se ligam os equipamentos aos clientes, e quem aprova o acesso à rede industrial?
- Como se guardam as versões dos documentos, e como se mostram as dependências?
- Como se controlam os prazos de entrega e o stock crítico das peças?
- Como se separam os dados de cada cliente, e como se controlam os acessos dos subempreiteiros?
- Quais são os custos ao fim de três anos, e como levo os meus dados se mudar?
Por onde começar
Costumamos começar pelo mais repetitivo: as pendências dos testes e o parque instalado com histórico por máquina, que são simples e dão logo organização. A monitorização remota fica para quando um cliente a pedir e autorizar.
Na Soluções à Medida fazemos software para integradores de automação e empresas de assistência industrial. Fale connosco sobre o seu caso. Veja também as soluções para automação e robótica, as soluções para indústria, o guia de software para indústria e produção e os exemplos por setor.