Uma clínica de ginecologia e obstetrícia junta, no mesmo processo clínico, consultas de ginecologia geral, vigilância pré-natal, ecografia e, nalguns casos, uma unidade de procriação medicamente assistida (PMA). Cada uma tem calendários, exames e regras próprias, com dados dos mais sensíveis que uma clínica trata. Este guia é para quem gere uma clínica privada de ginecologia e obstetrícia em Portugal. Escrevemo-lo como quem constrói este software e, onde temos, mostramos um exemplo em vídeo. Cobre funções, regras, prateleira ou à medida e custos.

Consulta de ginecologia e rastreio do colo do útero

A ficha ginecológica junta a história menstrual (data da última menstruação, regularidade, menopausa), a história obstétrica (gestações, partos e abortos), o método contracetivo, os antecedentes de patologia ginecológica e os achados do exame. Dois pontos pesam: o seguimento do rastreio e o registo da colposcopia.

  • Citologia e teste de HPV: cada resultado fica no processo, com a data, e o sistema lembra o que o clínico definiu para o seguimento (repetir, encaminhar para colposcopia, vigiar). As regras de seguimento são clínicas: o software aplica as que o médico configurar, não as decide.
  • Colposcopia e tratamento: achados por zona do colo, biópsias (localização e número de fragmentos), resultado histológico e, se houver tratamento excisional, o resultado da peça e o plano de vigilância posterior.
  • Ecografia ginecológica e obstétrica: relatórios estruturados por tipo de exame (pélvico, obstétrico, morfológico), com as imagens ligadas ao processo se o ecógrafo der acesso, ou por exportação, porque muitos aparelhos só exportam imagens ou PDF; o DICOM confirma-se com o fabricante. Num exemplo que fizemos para uma clínica, fictícia, com o relatório de uma ecografia assinado pelo médico, a utente recebe um aviso sem dados clínicos e abre o relatório na área reservada; fica registado quando o consultou.

Vigilância pré-natal

A gravidez tem um calendário de consultas, análises e ecografias. O boletim de saúde da grávida é o documento de acompanhamento que a grávida leva consigo, e as orientações da Direção-Geral da Saúde (DGS) definem a vigilância da gravidez de baixo risco. O software não substitui o boletim: regista o que o obstetra faz em cada consulta (tensão arterial, peso, altura uterina, movimentos fetais, análises, ecografias) e permite consultar ou imprimir esses dados no formato que o modelo em vigor pedir. Confirme na DGS qual é o modelo atual antes de desenhar a exportação.

O que dá valor ao sistema é a lista do que falta: a grávida está às 22 semanas, a morfológica está a decorrer, a prova de tolerância à glicose ainda não foi agendada. Para marcar, num exemplo que fizemos para uma clínica, fictícia, o site mostra só as vagas reais e a marcação entra na agenda com o gabinete livre e lembrete na véspera.

A vigilância de uma gravidez, semana a semana
1.º trimestre2.º trimestre3.º trimestre
010203040 semanas
Hoje: 22 semanas
Rastreio combinado do 1.º trimestreecografia e marcadores séricos · 11 a 13+6 semanasFeito
Ecografia morfológica18 a 22 semanasEsta semana
Prova de tolerância à glicose oral24 a 28 semanasA agendar
Ecografia do 3.º trimestre30 a 32 semanasA agendar
Pesquisa de estreptococo do grupo B35 a 37 semanasA agendar
A lista do que falta sai do calendário de vigilância que o obstetra definiu para esta grávida. O sistema assinala o que já foi feito, o que está a decorrer e o que ainda tem de ser agendado, e cada resultado fica no processo da grávida.
Exemplo hipotético, com uma grávida de 22 semanas. O calendário é ilustrativo: prevalece o que o obstetra e as orientações da DGS definirem para cada caso.
  • Resultados com significado clínico, como o rastreio combinado do 1.º trimestre (translucência nucal com marcadores séricos) ou o teste de ADN fetal no sangue materno, devem ficar no processo com a data e o laboratório, e ser comunicados pelo médico. O software não deve enviar resultados de risco diretamente à grávida, sem consulta.
  • Grupo sanguíneo, serologias e alergias devem ser visíveis no topo do processo, porque condicionam decisões no parto e na urgência.
  • Transição para o parto: se a clínica encaminha para uma maternidade, o sistema pode gerar um resumo clínico da gravidez, que a grávida leva à maternidade, conforme a política de cada uma.

Procriação medicamente assistida

A PMA em Portugal é regulada pela Lei n.º 32/2006, alterada pela Lei n.º 17/2016 (que alargou o acesso) e pela Lei n.º 48/2019 (que mudou o regime de confidencialidade dos dadores). Os centros são autorizados pelo membro do Governo responsável pela saúde, depois de ouvido o Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA), e os dados dos ciclos são comunicados ao CNPMA nos termos que ele define. Sem centro de PMA, esta parte só interessa se o planeia ter.

Um ciclo de tratamento tem várias fases, e o sistema tem de as ligar numa só história: estimulação, monitorização ecográfica dos folículos, punção, laboratório de embriologia, transferência e teste de gravidez.

Monitorização de uma estimulação ovárica, consulta a consulta
Dia 38 folículos medidos0 com 14 mm ou maisDia 78 folículos medidos0 com 14 mm ou maisDia 108 folículos medidos3 com 14 mm ou maisDia 127 folículos medidos6 com 14 mm ou mais
Folículo abaixo de 14 mmFolículo com 14 mm ou mais
A evolução da estimulação cabe num só ecrã. Cada consulta de monitorização regista o número e o diâmetro dos folículos, e o sistema compara com as anteriores. O protocolo, a medicação e o momento da punção são decisões do médico: o software regista, compara e lembra.
Exemplo hipotético: os diâmetros e o número de folículos são fictícios e as ecografias são esquemáticas.

O banco de embriões é onde a rastreabilidade mais pesa. Cada embrião ou gâmeta criopreservado tem de estar ligado a um ciclo, a um consentimento e a uma posição física no tanque, e o sistema tem de saber quando um prazo legal termina.

O banco de embriões: onde está cada ciclo
123456canistersTanque 1123456canistersTanque 2
Ciclo 2026/0147
LocalizaçãoTanque 2 · canister 3 · cane 5 · posição 2
Conteúdo2 embriões, blastocistos de dia 5
Criopreservados em12 mar 2026
ConsentimentoRegistado no processo do ciclo
Destino e prazoConforme o consentimento e a Lei n.º 32/2006, com alerta antes do fim do prazo
Último inventário do tanque28 ago 2026
Exemplo hipotético, com dados fictícios e sem dados de identificação. O registo liga cada ciclo à sua posição física no tanque e ao consentimento dos beneficiários.
  • Prazos e destino dos embriões: a Lei n.º 32/2006 fixa, em regra, um prazo de três anos para utilização dos embriões criopreservados, com possibilidade de prorrogação em situações justificadas e opções de destino previstas na lei. Como este regime foi alterado e tem normas transitórias, confirme com o CNPMA ou com um jurista o que se aplica a cada caso.
  • Dadores: desde a Lei n.º 48/2019, as pessoas nascidas de dádiva de gâmetas ou de embriões podem, a partir dos 18 anos, pedir ao CNPMA a identificação civil do dador, com regime transitório para dádivas anteriores a 7 de maio de 2018. O sistema não deve, por isso, partir do princípio de que o dador é sempre anónimo: a separação entre os dados do dador e os do ciclo tem de ser desenhada com o CNPMA e com um jurista.
  • Indicadores do centro: taxas por ciclo e por idade calculadas com as mesmas definições que o CNPMA usa, para que os números da clínica sejam comparáveis com os que ele publica.

Oncologia ginecológica e menopausa

As clínicas privadas acompanham muitas vezes doentes oncológicas em articulação com o hospital de referência, e mulheres em menopausa. Nas duas, o sistema serve para estruturar o que o médico quer acompanhar, não para decidir.

  • Oncologia ginecológica: estadiamento (classificação FIGO) e tratamento registados de forma estruturada, marcadores tumorais com a data e a tendência, e consultas de vigilância agendadas conforme o plano do oncologista.
  • Menopausa e terapêutica hormonal: sintomas, fatores de risco e decisão terapêutica registados pelo médico, o protocolo (formulação e dose) e os controlos periódicos que ele definir, com lembretes dos exames de acompanhamento. Contraindicações e exames prévios são decisão clínica; o software lembra o que foi definido.

Dados sensíveis, RGPD e quem acede a quê

Diagnósticos de infertilidade, resultados de diagnóstico pré-natal, vida sexual e oncologia são dados de saúde, categoria especial no RGPD (artigo 9.º), com proteção reforçada. Na PMA há ainda as regras de confidencialidade da Lei n.º 32/2006. Um sistema à medida deve ter, desde o início:

  • Perfis de acesso por função: o administrativo não vê o processo clínico, a embriologia não vê o que não precisa, e o acesso a um processo fora do seguimento da doente é assinalado.
  • Registo de acessos (quem viu, quando, o quê), porque num caso de reclamação ou de violação de dados é a primeira coisa que se pede.
  • Alojamento e cópias de segurança na União Europeia, com testes de restauro.
  • Clínica licenciada: o licenciamento e o registo de prestadores de cuidados de saúde junto da Entidade Reguladora da Saúde (ERS) são do estabelecimento, não do software, mas o fornecedor deve conseguir exportar os dados que as entidades peçam.

Faturação e convenções

Uma clínica privada fatura a doentes particulares, a seguradoras e a subsistemas com que tenha convenção. Cada entidade tem tabelas e circuitos próprios, e a faturação tem de ser emitida por programa certificado pela AT. Se o seu sistema de faturação já está certificado, o software à medida pode ligar-se a ele, se der acesso ou por exportação, em vez de o substituir. Num exemplo que fizemos para uma clínica, fictícia, a receção confirma a apólice e a tabela da convenção no check-in e o valor a pagar aparece logo. Veja também o guia de faturação eletrónica em Portugal e o de software para clínicas e profissionais de saúde.

Prateleira ou à medida

Nem todas as clínicas precisam de software à medida. Os nossos critérios:

  • Consulta e ecografia, sem PMA: com poucos médicos e necessidade de agenda, ficha e faturação certificada, recomendamos um programa de gestão de clínicas de prateleira.
  • Centro de PMA: ciclos, banco de embriões, consentimentos e prazos raramente cabem num programa genérico: aqui faz sentido à medida.
  • Lista do que falta e seguimento de rastreio: se o programa não deixa configurar as regras do médico, um módulo à medida ao lado resolve.
  • Várias convenções: tabelas por entidade que o programa não trata pedem uma peça à medida ligada à faturação atual.

Quanto custa

  • Automação pontual (lembretes de consultas e de exames pré-natais, envio de relatórios, alertas de prazos): a partir de €300.
  • Dashboard com consultas, exames pendentes, faturação e indicadores da clínica: a partir de €500.
  • Aplicação web para um processo específico, como a agenda de vigilância pré-natal ou o registo de colposcopias: a partir de €800.
  • App mobile para consulta de agenda e resultados pelos médicos: a partir de €2.500.
  • Manutenção mensal: a partir de €50.
  • Processo clínico completo, gestão de PMA e integrações (ecógrafos, laboratórios, faturação certificada): orçamento personalizado, caso a caso.

O preço final fixa-se na proposta. O retorno é difícil de prometer: depende de quantas consultas faltam por falta de lembrete, de quantos exames ficam por agendar e do tempo perdido a procurar resultados. Meça isso durante um mês antes de pedir propostas.

O que perguntar a um fornecedor

  • Como se liga ao meu ecógrafo e ao meu laboratório, e o que depende de o fabricante permitir?
  • Que perfis de acesso existem, e posso ver o registo de acessos a um processo?
  • Onde ficam alojados os dados, e como se exportam se eu mudar de sistema?
  • Como se guardam os consentimentos, e o que acontece quando um prazo termina? (para PMA)
  • Quem corrige o sistema quando as orientações da DGS ou a legislação mudarem, e quanto custa?
  • Quais são os custos ao fim de três anos, incluindo manutenção e novas funções?

Por onde começar

Escolha o ponto onde a clínica perde mais tempo hoje: a lista do que falta na vigilância pré-natal, o seguimento de citologias e colposcopias, ou o controlo de prazos na PMA. Começamos por aí, num módulo ligado ao que já usa, por API se der acesso ou por exportação.

O software regista, agenda, alerta e entrega: não diagnostica, não interpreta exames e não decide nada clínico. Contacte-nos para uma conversa sem compromisso; orçamos caso a caso, com estimativa de custo e prazo. Veja também as soluções para saúde, os guias de clínicas de pediatria e de laboratórios de análises clínicas e os exemplos por setor.