Numa clínica de pediatria, o utente é a criança, mas quem marca a consulta, dá o consentimento, recebe os lembretes e paga é o pai, a mãe ou outro responsável. A isto junta-se o que é próprio da especialidade: curvas de crescimento, marcos do desenvolvimento, calendário de vacinas e doses calculadas pelo peso. Este guia é para quem dirige uma clínica ou um consultório de pediatria em Portugal. Escrevemo-lo como quem constrói este software, com exemplos em vídeo onde os temos: o que tratar, que regras interessam, quando chega um programa pronto e quanto custa.
Vigilância de saúde e curvas de crescimento
O Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil da DGS (Norma 010/2013) organiza a vigilância em consultas a idades-chave: no primeiro ano, na primeira semana, ao mês e aos 2, 4, 6, 9 e 12 meses, e depois a intervalos mais espaçados até à adolescência. Em cada consulta regista-se o peso, o comprimento ou a altura e, nos mais pequenos, o perímetro cefálico.
- Curvas automáticas: cada medição é traçada nas curvas de referência que a clínica adotar (por exemplo, as da OMS), com o percentil calculado.
- Alertas para valores abaixo do percentil 3 ou acima do 97, e para a criança que atravessa duas linhas de percentil, que pode ser sinal de doença, má nutrição ou um problema endócrino.
- Marcos do desenvolvimento (motor, linguagem, social) registados por idade, com aviso quando um marco não aparece na janela esperada.
- Boletim de Saúde Infantil e Juvenil: existe em versão eletrónica desde 2016 (Despacho n.º 6744/2016) e preenche-se pelo sistema oficial. Confirme com o fornecedor como a clínica regista e partilha a informação com os pais, já que nem sempre há ligação direta às plataformas do SNS.
Vacinação
O Programa Nacional de Vacinação (PNV) é gratuito e a referência técnica é agora o «Livro Azul de Vacinas», publicado pela DGS em outubro de 2025. No esquema geral, a hepatite B dá-se ao nascer e aos 2 e 6 meses; a DTPa, a Hib e a VIP aos 2, 4 e 6 meses, com reforço aos 18; a pneumocócica conjugada e a MenB aos 2, 4 e 12 meses; aos 12 meses também a VASPR e a meningocócica, que passou de MenC para MenACWY (Norma 005/2025). Aos 5 anos há reforços de DTPa, VIP e VASPR, e aos 10 a HPV e a Td. A BCG não é universal: dá-se a grupos de risco, e só depois do resultado do rastreio neonatal de imunodeficiência grave.
As normas mudam com frequência, e este resumo pode já estar desatualizado quando o ler. Por isso, o calendário deve ser uma tabela que a clínica edita, com a norma de origem registada, e não regras escritas no código.
- Registo de cada toma: vacina, lote, validade, via, local, profissional e data.
- Doses em atraso calculadas a partir da data de nascimento, com lembrete automático aos pais.
- Vacinas fora do PNV (gripe, varicela, rotavírus, entre outras), consoante a indicação clínica e o que os pais decidirem.
- Registo nacional: o boletim atualiza-se pelo sistema oficial, não pelo software. Confirme com a DGS e com o fornecedor como as tomas dadas na clínica chegam à plataforma nacional de vacinação, para não haver duplicações nem falhas no boletim.
Olá Ana, a MenB do Tomás (dose dos 12 meses) ainda não está registada. Pode marcar a toma na clínica ou dizer-nos se já a fez noutro local.
Doença aguda e prescrição
A febre, as infeções respiratórias, a gastroenterite, a otite e os exantemas enchem a agenda do inverno. O software deve permitir o registo rápido dos sinais vitais e do peso do dia, escalas de gravidade com a pontuação somada (por exemplo, a de Westley para a laringite ou escalas de desidratação) e o registo da referenciação para a urgência hospitalar quando o pediatra a decide. Num exemplo que fizemos para uma clínica, fictícia, o site mostra só as vagas reais de cada especialidade e a marcação entra na agenda com o gabinete livre.
- Doses por quilo calculadas a partir do peso registado nesse dia, com dose máxima e arredondamento à apresentação disponível (por exemplo, mililitros de xarope).
- Alergias bem visíveis e verificadas em cada prescrição.
- Antibióticos: as normas da DGS e as recomendações da Sociedade Portuguesa de Pediatria pedem uso criterioso. Um protocolo por diagnóstico e o registo da taxa de prescrição ajudam a clínica a ver onde está.
- Prescrição eletrónica pelos sistemas reconhecidos pelos SPMS, como em qualquer especialidade.
Na traumatologia, veja o guia de software para clínicas de ortopedia e traumatologia. Nas alergias alimentares e respiratórias, o de clínicas de alergologia.
Desenvolvimento e trabalho em equipa
A deteção precoce de perturbações do neurodesenvolvimento (espetro do autismo, PHDA, perturbações da linguagem e da aprendizagem) é uma tarefa central da pediatria, porque a intervenção cedo ajuda. O software pode guardar os instrumentos de rastreio que a clínica usa (por exemplo, o M-CHAT-R/F entre os 16 e os 30 meses, ou questionários para pais e professores na PHDA), com o resultado, a data e a referenciação feita. Confirme as licenças de uso de cada instrumento antes de o pôr num sistema.
- Equipa: pediatra, psicólogo, terapeuta da fala, terapeuta ocupacional e fisioterapeuta, com notas partilhadas só com quem acompanha a criança.
- Plano de intervenção com objetivos por área e evolução ao longo do tempo.
- Relatórios para a escola, que apoiam o pedido de medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão (Decreto-Lei n.º 54/2018), sempre com autorização dos pais.
Veja também os guias de clínicas de fisioterapia e de psicologia e saúde mental.
Pais, famílias e consentimento
A ficha da criança liga-se à ficha de cada responsável: quem tem as responsabilidades parentais, quem pode acompanhar a criança às consultas, para onde vão os lembretes e em nome de quem sai a fatura. Pais separados, avós que trazem os netos e irmãos marcados no mesmo dia são o dia a dia da pediatria, e o sistema deve tratá-los sem truques. Num exemplo que fizemos para uma clínica, fictícia, o relatório de uma ecografia fica assinado, o utente recebe um aviso sem dados clínicos e abre o relatório na área reservada, com registo de quando o consultou. Nos menores, o acesso pode ficar com o representante legal.
- Dados de saúde de menores são dados sensíveis (artigo 9.º do RGPD). O tratamento para a prestação de cuidados tem base própria no RGPD; outros usos, como o marketing, pedem consentimento dos pais.
- Adolescentes: a idade a partir da qual o jovem decide por si sobre cuidados de saúde e sobre os seus dados depende do ato e da lei aplicável. Defina a regra com o encarregado de proteção de dados e com um jurista, e configure o sistema para ela.
- Acesso restrito a quem acompanha a criança, com registo de quem consultou cada processo.
- Partilha com outros médicos, a escola ou um tribunal só com base legal ou autorização dos responsáveis, registada no processo.
- Conservação: os processos clínicos de menores guardam-se por muitos anos, para lá da maioridade. Confirme o prazo com o seu jurista.
Este resumo vem de fontes públicas e de conhecimento geral, e não substitui um jurista nem as normas da DGS em vigor.
Seguros, subsistemas e faturação
Muitas famílias que procuram a pediatria privada têm seguro de saúde ou um subsistema, como a ADSE. O software deve guardar as tabelas de cada entidade, verificar a elegibilidade quando a entidade o permite, separar o que paga a entidade e o que paga a família, e faturar pelos formatos de cada uma. Num exemplo que fizemos para uma clínica, fictícia, a receção confirma a apólice e a tabela da convenção no check-in e a consulta entra no lote do seguro. A faturação ao cliente faz-se por programa certificado; veja o guia de faturação eletrónica em Portugal.
Indicadores que vale a pena seguir
- Crianças com vacinas em dia, entre as que a clínica acompanha.
- Consultas de vigilância feitas nas idades-chave, e faltas.
- Referenciações do desenvolvimento e idade em que foram feitas.
- Prescrição de antibióticos em consultas de doença aguda.
- Tempo até consulta de doença aguda, sobretudo no inverno.
Programa pronto ou à medida
Há programas prontos para clínicas que servem bem muitos consultórios, e recomendamos começar por eles quando o caso é simples:
- Pronto: um ou dois pediatras, uma agenda, e um programa que já trate curvas, vacinas e faturação certificada.
- À medida: equipa de desenvolvimento com terapeutas e plano de intervenção.
- À medida: várias salas, ou famílias com vários filhos e responsáveis que o programa não liga.
- Por partes: o programa serve, mas falta ligar ferramentas que já usa. Ligamos por API se der acesso, ou por exportação.
Quanto custa
- Automação pontual (lembretes de vacinas e de consultas de vigilância aos pais, alerta de criança que desce percentis): a partir de €300.
- Dashboard com consultas por tipo, vacinas em atraso, tempos de espera e prescrição: a partir de €500.
- Aplicação web com ficha da criança e da família, curvas de crescimento, calendário de vacinas e agenda: a partir de €800.
- App mobile para os pais verem marcações, vacinas e documentos: a partir de €2.500.
- Manutenção mensal: a partir de €50.
- Integração com seguradoras, subsistemas, prescrição eletrónica ou plataformas do SNS, e sistemas completos: caso a caso. O preço final fixa-se na proposta.
O que perguntar a um fornecedor
- O calendário de vacinas é editável pela clínica, e fica registada a norma da DGS em que se baseia?
- Que curvas de crescimento usa, e como calcula percentis e alertas?
- Como calcula doses por quilo, e com que verificação de dose máxima e alergias?
- Como liga a criança a vários responsáveis, com autorizações e faturas diferentes?
- Como se regista quem consultou cada processo, e como se controla a partilha com terapeutas e escola?
- Como exporto os dados se mudar de fornecedor, e quais são os custos ao fim de três anos?
Por onde começar
Comece pela ficha da criança ligada à família, com curvas e vacinas, e pelos lembretes aos pais: o que se repete todos os dias. O trabalho em equipa no desenvolvimento e as integrações com seguradoras vêm depois. O software regista, agenda, lembra e entrega; o diagnóstico, as vacinas e as doses são decisão do médico.
Num projeto de pediatria, começamos pelo processo mais repetitivo e orçamos caso a caso. Contacte-nos para uma conversa sem compromisso, com estimativa de custo e prazo. A agenda por profissional e a faturação, comuns a todas as especialidades, estão no guia de software para clínicas e profissionais de saúde. Veja também as soluções para saúde e bem-estar, o guia de clínicas de ginecologia e obstetrícia e os exemplos por setor.