Uma oficina de maquinagem, uma serralharia e uma fábrica de estampagem não trabalham da mesma forma, mas têm problemas parecidos: orçamentos feitos à mão para cada desenho, prazos que dependem de quem planeia, certificados de material perdidos em pastas e máquinas paradas sem que ninguém saiba porquê. Este guia é para quem gere uma empresa da indústria metalomecânica, e escrevemo-lo como quem constrói este tipo de software: onde temos um exemplo em vídeo, mostramo-lo. Cobre o que o software deve fazer em cada fase, o que a rastreabilidade exige, quando um programa pronto chega e quanto custa.
Orçamentação: cada peça é um cálculo
O orçamento de uma peça parte do desenho do cliente (2D ou 3D, em formatos como DXF, DWG ou STEP) e traduz-se em operações: corte, maquinagem, dobragem, soldadura, tratamentos de superfície. Para cada operação há um tempo estimado, uma máquina e um custo por hora. A isto somam-se o material, cotado ao preço do dia, e as operações subcontratadas, como tratamentos térmicos, galvanização ou pintura.
O software deve guardar estas estimativas, calcular o custo e o preço de venda com a margem definida e permitir reutilizar orçamentos de peças parecidas. Depois, compara o orçado com o real. Num exemplo que fizemos para uma fábrica fictícia, 400 suportes orçados em 3.500 € de custo, para uma venda de 4.600 €, saem com a quinagem 28 % acima do previsto e mais sucata: o custo apurado sobe para 3.960 € e a margem cai de 24 % para 14 %, e os tempos de referência são atualizados. Veja também o guia de software de orçamentação e propostas.
Planeamento e máquinas
O planeamento distribui as ordens de fabrico pelas máquinas, com os tempos de preparação (setup) e de produção de cada operação. A vista mais útil é um diagrama de Gantt ou uma grelha por máquina e por dia. No exemplo que preparámos para uma empresa de fabricação, fictícia, entra uma encomenda urgente para a quinadora na quarta-feira: a ordem que lá estava passa para quinta, onde há folga, e a data prometida ao cliente, 6/11, mantém-se. O software pode também alertar quando uma encomenda arrisca falhar o prazo e recalcular o plano numa avaria.
- Programas CNC: guardar a versão aprovada de cada programa por referência, controlar alterações e saber qual o programa que correu numa dada ordem. O envio para a máquina (DNC) depende do controlo de cada equipamento.
- Manutenção: planos preventivos, registo de avarias e de tempos parados. Veja o guia de software de manutenção (CMMS).
- OEE: junta disponibilidade, desempenho e qualidade num só indicador por máquina. Os 85% citados como referência de classe mundial contam menos do que o valor da sua fábrica, medido de forma consistente. Veja o guia de software de gestão industrial e produção.
- Ferramentas: vida útil de pastilhas e brocas, stock de ferramenta e custo por peça.
Chapa, barra e retalhos
Na transformação de chapa, o material é grande parte do custo, e o que sobra depois do corte é dinheiro. O software deve ajudar a agrupar peças de várias ordens de fabrico na mesma chapa (nesting) e devolver os retalhos ao stock, com as medidas, para a próxima encomenda. O nesting em si costuma ser feito pelo software CAM das máquinas de corte, e ligamo-nos a ele se der acesso, ou por exportação. Para o resto do material, veja o guia de gestão de stocks e inventário.
Qualidade, certificados e rastreabilidade
O plano de controlo define, para cada referência, o que medir, com que instrumento, com que frequência e com que critério de aceitação. O software regista as medições (paquímetro, micrómetro, máquina de medição por coordenadas), os ensaios e o destino das peças não conformes: retrabalho, sucata ou desvio autorizado pelo cliente. Noutro exemplo fictício, um paquímetro fora do prazo de calibração fica bloqueado e as 14 medições feitas com ele ficam assinaladas, com os lotes afetados.
A rastreabilidade de material é obrigatória em muitas aplicações exigentes e é uma vantagem comercial. O certificado de material segundo a norma EN 10204 dá a composição e as propriedades de cada corrida de aço: o tipo 3.1 é validado pelo fabricante, através de um representante independente da produção, e o 3.2 tem ainda a validação de uma entidade externa ou do representante do cliente. O software deve associar cada certificado ao lote recebido, cada lote às ordens de fabrico que o consumiram e cada ordem às peças expedidas.
- Estruturas metálicas: a marcação CE de estruturas de aço segue a norma EN 1090, que exige um controlo da produção em fábrica e registos associados.
- Soldadura: a norma EN ISO 3834 define requisitos de qualidade para a soldadura por fusão, e a qualificação dos soldadores e dos procedimentos deve ficar registada e com as datas de validade.
- Automóvel e aeronáutica: clientes destes setores exigem a IATF 16949 ou a AS9100, e em muitos casos a ISO 9001 é o mínimo. O software não certifica a empresa, mas guarda os registos que a auditoria vai pedir. Veja o guia de software de controlo de qualidade ISO 9001.
Confirme com o seu organismo de certificação e com o cliente quais os requisitos que se aplicam à sua atividade.
Encomendas, faturação e preços indexados
O prazo de entrega é uma promessa que se paga: muitos contratos de fornecimento têm penalizações por atraso, que variam de cliente para cliente. O sistema deve mostrar o estado de cada encomenda, o que falta fazer e a data prevista, incluindo as peças que estão fora, sem ir à fábrica perguntar. Num exemplo fictício, regressam da lacagem 392 dos 400 suportes: 12 com defeito de pintura e 8 ainda no fornecedor, com uma não conformidade aberta.
A faturação faz-se por entrega ou por período, com programa certificado pela AT (veja o guia de faturação eletrónica em Portugal). Em contratos longos com o setor automóvel é frequente haver cláusulas de revisão de preços indexadas ao aço ou à energia. O software pode aplicar a fórmula e o índice que cada contrato define, quando o índice for publicado.
Programa pronto ou à medida
Muitas empresas já têm ERP, CAD e máquinas CNC de vários fabricantes. Um software à medida raramente os substitui: costuma ser a camada que falta, como o orçamento, o planeamento visual, os certificados ou os alertas de prazo. Ligamos por API se o sistema der acesso, ou por exportação. Para decidir, sugerimos quatro perguntas:
- As peças repetem-se? Com referências estáveis e um ERP que já trata encomendas, um programa pronto ou um módulo do ERP pode chegar, e é o que recomendamos.
- Cada encomenda é um desenho novo? Se o programa não modela as operações e a subcontratação, a folha de cálculo volta a aparecer ao lado: aí, um programa à medida faz sentido.
- A rastreabilidade está em pastas? Se ligar certificado, lote e expedição obriga a procurar em papel, essa ligação é um bom primeiro módulo.
- Falta só uma camada? Se o problema está no planeamento ou nos alertas, acrescentar essa camada pode bastar, sem trocar de sistema.
Quanto custa
- Automação pontual (alertas de prazo de entrega, de validade de certificados e de calibração de instrumentos): a partir de €300.
- Dashboard com encomendas em atraso, carga por máquina e taxa de rejeição: a partir de €500.
- Aplicação web com orçamentos, ordens de fabrico, planeamento e registo de qualidade: a partir de €800.
- App mobile para o chão de fábrica registar operações e inspeções no telemóvel ou tablet: a partir de €2.500.
- Manutenção mensal: a partir de €50.
- Sistemas completos com integração em ERP, CAD e máquinas, ou com requisitos de auditoria IATF, AS9100 ou EN 1090: orçamento caso a caso. O preço final fixa-se na proposta.
Por onde começar
Vale a pena medir durante um mês o tempo real das operações nas peças mais repetidas contra o orçado e escolher o ponto de dor: prazos falhados, orçamentos demorados, certificados dispersos ou máquinas paradas. Começamos pelo processo mais repetitivo, como um quadro de encomendas com prazos, e juntamos planeamento, qualidade e manutenção quando essa base estiver em uso. Contacte-nos para uma conversa sem compromisso, com estimativa de custo e prazo. Veja também as soluções para fabricação e as soluções para indústria, e os exemplos por setor.