Muitas PME portuguesas que movimentam produtos físicos ainda controlam o stock em folhas de cálculo. Funciona nos primeiros meses e depois começa a falhar.

Escrevemos este guia como quem constrói sistemas de stocks e, onde temos exemplo em vídeo, mostramo-lo. Cobre o que deve fazer um software de gestão de stocks, quando basta um programa pronto, o que a lei e os setores regulados exigem em Portugal e como dar o primeiro passo.

Onde a folha de cálculo falha

  • Erros de introdução: um zero a mais ou a menos numa contagem gera encomendas desnecessárias ou ruturas sem aviso.
  • Versões diferentes: dois colaboradores em ficheiros diferentes acumulam divergências até ao próximo inventário físico.
  • Sem alertas: ninguém é avisado quando um artigo crítico chega ao mínimo, e a rutura descobre-se com o cliente à espera.
  • Sem rastreabilidade de lotes: em alimentação, farmácia ou químicos, saber que lote foi vendido a quem e quando é difícil de manter numa folha.
  • Sem análise de rotação: saber que artigos mais saem, quais estão parados e quais se aproximam da validade pede horas de trabalho manual.
  • Sem ligação: a folha não fala com a faturação, a loja online nem as compras, e cada alteração faz-se três vezes.

O que deve fazer um software de gestão de stocks

  • Entradas e saídas: receção, venda, transferência entre armazéns, devoluções e ajustes, cada movimento com data, utilizador, documento de origem e quantidade.
  • Localização: corredor, estante e posição de cada artigo, para reduzir a procura e os erros de preparação.
  • Lotes e validades: registo do lote na receção, saída pelo critério FEFO (o que caduca primeiro sai primeiro) e alertas de validade. Num exemplo que fizemos para uma distribuidora fictícia, o operador lê primeiro um lote de leite que expira a 28/11 e o sistema avisa que há um lote com validade mais curta; os dois lotes recolhidos ficam na guia.
  • Stock mínimo e reposição: um nível mínimo por artigo, que gera alerta ou proposta de encomenda ao fornecedor.
  • Análise ABC e rotação: artigos de maior e menor saída, artigos sem movimento e previsão de consumo a partir do histórico.
  • Valorização do stock: o inventário entra no balanço, e a norma contabilística de inventários (NCRF 18, no SNC) admite fórmulas como o FIFO e o custo médio ponderado. A fórmula confirma-se com o contabilista, e o software aplica-a de forma consistente.
Análise ABC: poucos artigos concentram as saídas
0%25%50%75%100%Art. 1Art. 2Art. 3Art. 4Art. 5Art. 6Art. 7Art. 8Art. 9Art. 10
A · 4 artigos, 81% das saídasB · 3 artigos, 14%C · 3 artigos, 4%
Exemplo hipotético, com dez artigos e 900 unidades vendidas. As barras são as saídas de cada artigo, ordenadas da maior para a menor, e a linha é a percentagem acumulada. Os artigos A merecem contagens mais frequentes e stock de segurança.

Stocks simples ou WMS

Programa pronto: com um armazém ou uma loja, algumas centenas de referências, sem localização por posição e com picking simples, basta muitas vezes o módulo de stocks do programa de faturação ou do ERP, e recomendamos começar por aí. Na nossa leitura, o caso é de sistema à medida quando há:

  • Variantes: tamanhos, cores ou acabamentos com stock próprio.
  • Vários pontos de venda: loja, site e marketplaces a vender do mesmo stock, ou várias lojas a transferir entre si.
  • Lotes e validades: saída por FEFO e resposta a uma recolha de lote.
  • Programas que já usa: faturação, loja online e ERP ligados ao stock, por API se derem acesso ou por exportação.

WMS (Warehouse Management System): compensa com vários armazéns, milhares de referências, percursos de recolha otimizados ou exigências regulatórias de rastreabilidade. Gere o armazém posição a posição, com leitores de código de barras. Para uma PME, um sistema à medida mais simples que um WMS completo é muitas vezes o meio-termo.

Percurso de recolha no armazém
A-01A-02A-03A-04A-05A-06Estante AB-01B-02B-03B-04B-05B-06Estante BC-01C-02C-03C-04C-05C-06Estante CD-01D-02D-03D-04D-05D-06Estante DInícioExpedição1234
Lista de recolha
1A-03 · 12 un.
2A-01 · 4 un.
3C-04 · 30 un.
4D-02 · 6 un.
Ordenada pelo percurso, e não pela ordem do pedido.
Exemplo hipotético. Cada artigo tem uma localização (estante e posição), e o sistema ordena a lista de recolha pelo percurso mais curto entre elas. Assim, o operador não anda de um lado para o outro do armazém.

Reposição: quando e quanto encomendar

O ponto de encomenda de um artigo depende de duas coisas: quanto sai por dia e quanto demora o fornecedor a entregar. Somando o consumo durante esse prazo a uma margem de segurança, obtém-se o nível a partir do qual se deve encomendar. O software usa o histórico de saídas e o prazo de cada fornecedor para propor a encomenda, e o comprador revê e aprova. Num exemplo que fizemos para uma loja de bicicletas fictícia, o tamanho M em verde que falta numa loja fica reservado na outra, e os tamanhos sem stock entram na proposta de encomenda antes da época.

Nível de stock e encomenda automática
0100200300400dia 0dia 14dia 28dia 42dia 56stock de segurançaponto de encomenda: 150EncomendaChegadaEncomendaprazo de entrega: 7 dias
Exemplo hipotético de um artigo que sai 12 unidades por dia. Quando o stock chega ao ponto de encomenda, o sistema propõe a compra, e a mercadoria chega ao fim do prazo de entrega sem que o stock de segurança seja tocado. O ponto de encomenda é, em regra, o consumo durante o prazo de entrega (aqui 84 unidades) mais o stock de segurança (aqui 66).

Requisitos específicos de Portugal

  • Rastreabilidade alimentar: o Regulamento (CE) n.º 178/2002, no artigo 18.º, exige que os operadores consigam identificar quem lhes forneceu um alimento e a quem o forneceram (um passo atrás e um passo à frente). A fiscalização em Portugal é da ASAE e, para produtos de origem animal, também da DGAV. O software regista o lote do fornecedor, associa-o às saídas e permite tirar o relatório numa recolha. Veja também o guia de rastreabilidade alimentar e HACCP digital.
  • HACCP: o Regulamento (CE) n.º 852/2004 obriga os operadores alimentares a procedimentos baseados nos princípios HACCP. O módulo de stocks pode registar a temperatura na receção de refrigerados e congelados, com alerta de desvio e arquivo para auditoria.
  • Guias de transporte: os documentos de transporte de mercadorias têm de ser comunicados à Autoridade Tributária antes do início do transporte (Portaria n.º 161/2013), no caso dos sujeitos passivos abrangidos pela obrigação, e com programa certificado. O sistema de stocks pode preparar os dados da guia e passá-los ao programa certificado, ou receber dele o documento, sem dupla introdução. Veja o guia de faturação eletrónica em Portugal.
  • Resíduos e e-GAR: o transporte de resíduos em território nacional é acompanhado pela guia eletrónica e-GAR, da APA, que não substitui a guia de transporte da AT. Se a empresa movimenta resíduos, estas saídas registam-se com os dados do stock, e a ligação à plataforma da APA avalia-se caso a caso.
  • Medicamentos: farmácias e distribuidores têm regras próprias de rastreio de lotes e validades, e de registo de estupefacientes e psicotrópicos. Os registos e comunicações aplicáveis confirmam-se com o INFARMED e com o software de farmácia que já usa.

Ligações a faturação, e-commerce, ERP e compras

  • Faturação certificada: quando a fatura é emitida, o stock baixa, e quando há uma nota de devolução, volta a entrar.
  • Loja online e marketplaces: cada venda atualiza o stock, para não vender o que está esgotado. Num exemplo que fizemos para uma loja online fictícia, a última toalha vendida ao balcão põe o stock a 0 e a quantidade nova segue para os três canais online. Depende do acesso que cada plataforma dá.
  • ERP: por API, se o ERP der acesso, ou por exportação, para sincronizar movimentos, encomendas e requisições. Veja o guia de ERP à medida para PME.
  • Compras: propostas de encomenda ao fornecedor habitual, pelo consumo e pelo prazo de entrega.

Casos de uso por setor

Inventário no armazém com o telemóvel

  • Receção: ler o código de barras do artigo, confirmar a quantidade e associar lote e validade.
  • Picking: seguir uma lista de recolha e confirmar cada artigo com leitura de código, para evitar trocas.
  • Transferências: registar a saída de uma posição e a entrada noutra na hora.
  • Inventário cíclico: contar uma zona de cada vez, sem parar o armazém, e ver as diferenças face ao stock teórico.
  • Etiquetas: imprimir a partir do telemóvel numa impressora compatível.

Em paletes e localizações, o QR Code guarda mais informação do que o código de barras e lê-se a maior distância.

Como migrar da folha de cálculo

  1. Mapear os dados: código, descrição, unidade, localização, stock atual, mínimo, fornecedor e custo, o que revela duplicados e campos em branco.
  2. Limpar: eliminar duplicados, uniformizar unidades, corrigir descrições e decidir o que fazer aos obsoletos. Dados sujos na folha dão dados sujos no sistema.
  3. Importar e validar: importar por ficheiro CSV ou Excel estruturado, comparar totais e conferir uma amostra de artigos críticos.
  4. Trabalhar em paralelo: nas primeiras semanas, manter a folha como referência, o que revela movimentos nunca registados.

Quanto custa

  • Automação ou integração pontual (por exemplo, alertas de stock mínimo ou de validade a partir de dados que já existem): a partir de €300.
  • Dashboard de rotação, rutura e valor do stock: a partir de €500.
  • Aplicação web com artigos, movimentos, lotes, localizações e reposição: a partir de €800.
  • App mobile para leitura de códigos de barras e QR no armazém: a partir de €2.500.
  • Manutenção mensal: a partir de €50.
  • Integrações com ERP, faturação certificada, loja online ou transportadoras, e WMS completos com vários armazéns: orçamento personalizado, caso a caso.

O preço final fixa-se na proposta. Antes de decidir, vale a pena medir o custo atual das ineficiências: horas em tarefas manuais, ruturas, stock parado e erros de inventário.

Por onde começar

Se se reconhece em ruturas frequentes, num inventário que não bate com a contabilidade ou em auditorias difíceis, o passo seguinte é um diagnóstico: quantos artigos e utilizadores, que ligações existem e que regras se aplicam ao seu setor. Na Soluções à Medida começamos pelo processo mais repetitivo do seu armazém, ligamos aos programas que já usa por API se derem acesso ou por exportação, e orçamos caso a caso. Contacte-nos para uma conversa sem compromisso, com estimativa de custo e prazo, e veja os exemplos por setor.