Uma empresa de transporte ou de logística gere ao mesmo tempo viaturas, motoristas, cargas, rotas, clientes e documentos, com prazos curtos e erros caros. A folha de cálculo e os grupos de mensagens aguentam até certo ponto. Depois disso, deixa de se saber, em tempo real, onde está cada entrega, que viatura está parada e quanto custou cada volta. Este guia é para quem dirige ou gere uma transportadora, uma operação de distribuição ou a logística de uma PME em Portugal. Escrevemo-lo como quem constrói este tipo de software: explica o que o sistema deve tratar, que regras interessam, como escolher entre pronto e à medida e quanto custa, com exemplos em vídeo onde os temos.

É o guia geral do setor. Se a sua empresa é sobretudo uma transportadora rodoviária de mercadorias por conta de outrem, o guia de transportes rodoviários de mercadorias desce ao detalhe do tacógrafo, da cabotagem e do plano de carga. Se o centro da operação é o armazém (receção, arrumação, preparação de encomendas), o de operadores logísticos e armazenagem é o mais indicado. Há ainda os guias de gestão de frotas e de transporte de mercadorias perigosas.

O que o setor tem de próprio

  • Licença de atividade: o transporte rodoviário de mercadorias por conta de outrem precisa de licença do IMT (Decreto-Lei n.º 257/2007), que também abrange ligeiros a partir de 2.500 kg. O transporte internacional exige ainda licença comunitária.
  • Documentos que acompanham a carga: o documento de transporte do regime de bens em circulação, a declaração de expedição (CMR) no transporte internacional e, conforme a carga, documentos próprios de resíduos, mercadorias perigosas ou produtos sujeitos a impostos especiais.
  • Tempos de condução e tacógrafo: os veículos abrangidos registam a atividade do motorista, e a empresa responde pelas infrações dos seus motoristas.
  • Clientes que exigem visibilidade: hora prevista, prova de entrega e, nos grandes clientes, troca automática de ordens e estados.
  • Margens curtas: combustível, portagens, horas de motorista e quilómetros em vazio decidem se uma volta dá lucro.

Planeamento de rotas e despacho

É o núcleo do sistema. O planeamento junta as ordens do dia, as janelas horárias de cada cliente, a capacidade de cada viatura (peso, volume, paletes, frio), as restrições de acesso e os motoristas disponíveis, e propõe voltas que quem planeia ajusta. Um bom sistema não decide sozinho: mostra porque propôs aquela volta e deixa mudar à mão. No exemplo que fizemos para uma transportadora fictícia, o peso de uma carrinha acima da capacidade fica a vermelho e a despachante passa uma entrega para o camião.

  • Ordens recebidas por portal, ficheiro, EDI ou API, sem reescrever nada.
  • Voltas propostas com ordem das paragens, hora prevista e carga por viatura.
  • Folha do motorista na app, com moradas, contactos, instruções e documentos.
  • Mudanças a meio do dia: uma recolha urgente, uma viatura avariada, uma entrega falhada que passa para amanhã.

Prova de entrega e aviso ao cliente

Na app do motorista, cada paragem pode fechar com a prova de entrega: hora, quem recebeu, assinatura, volumes lidos e, quando faz sentido, foto e posição. Uma entrega falhada fica com o motivo e volta ao planeamento. Na mesma transportadora fictícia, o motorista fotografa uma caixa amolgada e o cliente assina no ecrã com reserva; o escritório vê a entrega no mesmo momento.

Do outro lado, o cliente recebe a hora prevista e o estado sem ter de telefonar, por SMS, email ou num portal do cliente. No exemplo, o cliente final recebe o aviso de saída com a janela estimada e um novo aviso perto da hora, responde que não está em casa e a instrução fica registada para o motorista.

Uma volta de distribuição, paragem a paragem
1
Farmácia Luzjanela 08:00–10:00
Por entregarEntregue 08:41
2
Café Avenidajanela 08:30–11:00
Por entregarEntregue 09:12
3
Loja Biojanela 09:00–12:00
Por entregarEntregue 09:58
4
Escritório Sájanela 10:00–12:00
Por entregarAusente · amanhã
5
Talho Silvajanela 10:00–13:00
Por entregarEntregue 11:05
6
Grossistajanela 12:00–15:00
Por entregarA caminho · 12:40
Prova de entrega · paragem 3
Hora—09:58
Recebido por—M. Sousa
Volumes—2 de 2 lidos
Posição GPS—junto à morada
assinatura no telemóvel do motorista
SMS ao cliente da paragem 6A sua entrega chega hoje entre as 12:30 e as 13:00.
A falhada não se perde: o motivo, a foto da porta e a hora ficam registados, e a entrega passa para a volta de amanhã com aviso ao cliente.
Exemplo hipotético de uma volta com seis paragens: cinco entregas, uma falhada e o aviso ao último cliente com a hora prevista.

A posição em tempo real e as fotos são dados pessoais do motorista. Use-as para a operação e para a prova de entrega, não para vigiar a pessoa, e informe os trabalhadores sobre o que é recolhido e para quê. A CNPD tem orientações sobre geolocalização de trabalhadores. Confirme o enquadramento com o encarregado de proteção de dados.

Tempos de condução e tacógrafo

Os tempos de condução, pausas e repouso dos motoristas de veículos abrangidos seguem o Regulamento (CE) n.º 561/2006, e o tacógrafo o Regulamento (UE) n.º 165/2014. Desde 1 de julho de 2026, os ligeiros de mercadorias com mais de 2,5 t e até 3,5 t que façam transporte internacional ou cabotagem por conta de outrem também precisam de tacógrafo inteligente. Em Portugal, o regime das contraordenações consta do Decreto-Lei n.º 84/2026, de 13 de abril, que substituiu a Lei n.º 27/2010 e está em vigor desde julho de 2026. A fiscalização envolve a ACT, o IMT, a GNR e a PSP, e quem instrui e aplica as coimas depende do tipo de infração. A empresa pode ser responsabilizada pelas infrações dos seus motoristas, mesmo fora do país. Confirme o diploma em vigor e os prazos de descarga e conservação dos dados antes de os transformar em regras no sistema.

  • Descargas do cartão do condutor e da unidade do veículo guardadas por motorista e viatura, com aviso quando estão em atraso.
  • Análise das infrações (condução contínua, repouso diário e semanal) antes de uma fiscalização, e não depois da coima.
  • Planeamento que respeita os tempos: o sistema avisa quando uma volta não cabe nas horas que o motorista ainda tem.

O guia de transportes rodoviários de mercadorias desenvolve o tacógrafo, o Pacote Mobilidade e a cabotagem.

Documentos de transporte, CMR e e-CMR

  • Documento de transporte: o regime de bens em circulação (anexo ao Decreto-Lei n.º 147/2003) obriga, em regra, a comunicar o documento à AT antes do início do transporte, e o código devolvido acompanha a carga. Há dispensas, por exemplo para pequenos volumes de negócios. Confirme com o contabilista quem emite (o expedidor ou o transportador) e como o seu sistema comunica.
  • CMR: a declaração de expedição do transporte internacional rodoviário. Portugal aprovou o protocolo adicional que permite a versão eletrónica (e-CMR), mas só se usa quando o outro país também o aceita.
  • eFTI: o Regulamento (UE) 2020/1056 obriga as autoridades a aceitar informação de transporte em formato digital, com aplicação prevista para julho de 2027. Confirme o calendário antes de planear o projeto à volta dele.
  • Faturação: por programa certificado, com as ordens e as provas de entrega associadas a cada linha. Veja o guia de faturação eletrónica.

Integração com clientes

Grandes distribuidores e retalhistas enviam as ordens de transporte por EDI ou API e esperam receber de volta os estados e as provas de entrega no mesmo canal. Sem integração, alguém reescreve as ordens e responde a pedidos de estado por email.

Integração com um cliente: ordens e estados sem reescrever nada
Sistema do clienteRetalhista
mensagens trocadas automaticamente
O seu sistemaTransportadora
IFTMIN
Ordem de transporte: 14 paletes para 3 lojas
aceite
Ordem aceite e planeada na volta 2
IFTSTA
Carregado no armazém do cliente
IFTSTA
Entregue na loja 1, com prova de entrega
IFTSTA
Loja 3: 2 paletes recusadas (danos)
INVOIC
Fatura com as ordens do mês, por loja
do cliente para side si para o cliente
Sem integração, as mesmas ordens chegam por email ou portal e são reescritas à mão, e a recusa da loja 3 só aparece quando o cliente contesta a fatura. Os nomes IFTMIN, IFTSTA e INVOIC são mensagens EDIFACT; muitos clientes usam outras variantes ou uma API.
Exemplo hipotético das trocas de um dia entre o sistema de um retalhista e o de uma transportadora, mais a fatura do fim do mês.

Veja também os guias de integração de sistemas e de desenvolvimento de API.

Frota, manutenção e custos

  • Ficha da viatura: documentos, inspeções periódicas, seguros, licenças, manutenções por data e por quilómetros, e bloqueio no planeamento quando algo está vencido.
  • Combustível e portagens: importação dos extratos dos cartões de frota e da via verde, ligados às voltas, para detetar consumos fora do normal.
  • Custo por quilómetro e por volta, com motorista, combustível, portagens e desgaste, para saber que clientes e que rotas dão margem. No painel da transportadora fictícia, o custo de cada cliente compara-se com o faturado e um deles fica com margem negativa no mês.

O guia de gestão de frotas trata este tema em detalhe, e o de oficinas automóvel mostra o lado de quem faz a manutenção.

Cadeia de frio e cargas especiais

No transporte refrigerado, o cliente quer a prova de que a temperatura se manteve dentro do intervalo acordado em toda a viagem. As regras de higiene dos alimentos (Regulamento (CE) n.º 852/2004) exigem que a cadeia de frio não seja interrompida, os alimentos ultracongelados têm regras próprias de monitorização da temperatura, e os veículos para alguns transportes internacionais de perecíveis precisam de certificado ATP. Na distribuição de medicamentos aplicam-se as boas práticas de distribuição. Confirme as regras que se aplicam a cada produto.

Temperatura de uma viagem refrigerada, leitura a leitura
-2°0°2°4°6°8°10°6h8h10h12h14hlimite 4°P1P2P3P47,1°
ViagemV-2231 · reboque R-07
Leiturasde 5 em 5 min
Paragens4, uma fora do limite
Alerta enviado às 10:33Paragem 3: 15 min acima do limite de 4°. No total foram 45 min, com máximo de 7,1°.Carga afetada: paletes da paragem 4 (iogurtes). Cliente avisado, produto em quarentena até decisão.
Exemplo hipotético de produtos refrigerados com um limite de 4° acordado com o cliente; o limite certo depende do produto e do contrato.
  • Sondas no compartimento de carga, ligadas ao sistema, com leituras guardadas por viagem.
  • Alertas quando a temperatura sai do intervalo, com a lista das entregas afetadas.
  • Relatório por entrega para o cliente, e arquivo pelo prazo que o contrato ou a regra exigir.

As mercadorias perigosas têm o seu próprio regime (ADR) e um guia próprio: software para transporte ADR. Para o lado alimentar, veja o guia de rastreabilidade alimentar e HACCP.

Software pronto ou à medida

Há sistemas de gestão de transportes (TMS) e de armazém (WMS) prontos que servem bem muitas empresas. Se a operação tem processos comuns e poucos clientes a pedir integração, a nossa recomendação é começar por um deles. Um sistema à medida compensa quando a empresa se reconhece num destes sinais:

  • Cada grande cliente com o seu formato: as ordens chegam por EDI, API ou ficheiro, e alguém as reescreve e responde a pedidos de estado por email.
  • Circuitos próprios de distribuição: janelas, capacidades ou regras de despacho que o programa não deixa configurar.
  • Frota e armazém em programas separados, com os mesmos dados lançados duas vezes. Costumamos ligar por API quando o programa dá acesso, e por exportação quando não dá.
  • Licenças por utilizador e por viatura que crescem mais depressa do que a empresa.
  • Margem por cliente às escuras: ninguém vê que contrato dá prejuízo.

Também pode ser uma camada à volta do que já usa, em vez de o substituir. O guia SaaS ou software à medida ajuda a comparar.

Quem vende online e tem logística própria enfrenta o mesmo problema na ligação entre loja, armazém e transportadoras. Veja o guia de software para comércio eletrónico.

Indicadores que vale a pena seguir

  • Entregas à primeira e motivos das falhadas.
  • Cumprimento das janelas horárias, por cliente.
  • Custo por quilómetro, por volta e por cliente.
  • Quilómetros em vazio e ocupação das viaturas.
  • Infrações de tempos de condução detetadas internamente.
  • Desvios de temperatura por viatura e por viagem.

Quanto custa

Os valores seguintes são os da tabela de preços, sem IVA.

  • Automação pontual (aviso de manutenção por data ou quilómetros, relatório diário de entregas, SMS ao cliente com a hora prevista): a partir de €300, tipicamente €300–1.500.
  • Painel com entregas, custos por volta e por cliente e indicadores de frota: a partir de €500, tipicamente €500–3.000.
  • Aplicação web com ordens, planeamento, frota e provas de entrega: a partir de €800, tipicamente €2.000–12.000.
  • App mobile para motoristas, com folha de serviço, prova de entrega e registo de ocorrências: a partir de €2.500, tipicamente €4.000–20.000.
  • Integrações com clientes por EDI ou API, telemática e sondas: a partir de €300 por ligação simples, tipicamente €500–5.000.
  • Manutenção mensal: a partir de €50, tipicamente €50–300 por mês.

O preço final fixa-se na proposta.

O que perguntar a um fornecedor

  • Como entram as ordens dos meus clientes, e quanto custa ligar um cliente novo por EDI ou API?
  • Como planeia as voltas com janelas horárias, capacidade das viaturas e tempos de condução?
  • O que regista a app na prova de entrega, e funciona sem rede?
  • Como trata o documento de transporte e a comunicação à AT?
  • Como guarda e analisa os dados de tacógrafo e de temperatura, e por quanto tempo?
  • Como exporto os dados se mudar de fornecedor, e quais são os custos ao fim de três anos?

Por onde começar

Comece pelo ponto que hoje custa mais tempo ou mais dinheiro: o planeamento diário, os telefonemas de clientes a perguntar pelas entregas, a reescrita de ordens ou o controlo de manutenções e tempos de condução. Resolva esse primeiro, meça as horas poupadas e os erros evitados, e acrescente o resto a partir daí.

Fazemos software para transportadoras e operações de logística e começamos pelo processo mais repetitivo, ligando ao que a empresa já usa se der acesso ou por exportação. Contacte-nos para uma conversa sem compromisso, com estimativa de custo e prazo. Veja também as soluções para transporte e logística, os guias de agências marítimas e transitários e de empresas de mudanças, e os exemplos por setor.

Este resumo vem de conhecimento geral e de fontes públicas, e não substitui um jurista ou um contabilista.