Uma clínica de oftalmologia vive de imagem e de comparação: a pressão do olho de há seis meses, a espessura das fibras nervosas de há três anos, a lente que foi implantada em cada olho e de que lote. Espalhado por equipamentos, pastas e papel, fica difícil acompanhar uma doença ou responder a uma recolha. Este guia é para quem gere uma clínica de oftalmologia em Portugal e está a decidir entre um programa pronto e um feito à medida. Escrevemo-lo como quem constrói este software, com exemplos em vídeo onde os temos.

A especialidade cobre consulta e acompanhamento (glaucoma, degenerescência macular, retinopatia diabética), cirurgia (catarata, retina, glaucoma, refrativa), rastreios e, em muitas clínicas, ótica. Para o essencial de qualquer clínica (agenda, ficha do utente, convenções), veja o guia de software para clínicas e profissionais de saúde.

Ficha oftalmológica estruturada

A ficha regista, para cada olho (OD e OE), a acuidade visual com e sem correção, a pressão intraocular, a refração objetiva e subjetiva, a biomicroscopia e a fundoscopia. Com campos por olho e por parâmetro, o sistema compara com as consultas anteriores e assinala as variações para o médico avaliar. O software não diagnostica.

Ficha oftalmológica, olho a olho
Olho direito (OD)
Acuidade visual10/10 com correção
Pressão intraocular16 mmHgantes: 16 mmHg
Refração-1,25 esf. · -0,50 cil. · 90°
Olho esquerdo (OE)
Acuidade visual10/10 com correção
Pressão intraocular24 mmHgantes: 17 mmHg
Refração-1,50 esf. · -0,25 cil. · 85°
O sistema compara com a consulta anterior, olho a olho. A pressão do olho esquerdo subiu de 17 para 24 mmHg, o que é assinalado ao médico. A interpretação clínica é sempre do oftalmologista.
Exemplo hipotético, com valores fictícios. A ficha regista cada olho em separado e mostra a variação desde a consulta anterior, para que uma subida da pressão não passe despercebida.

Imagem ocular e integração com equipamentos

Os retinógrafos, os OCT, os topógrafos corneanos e os campímetros geram imagens e relatórios que fazem parte do processo clínico. O software deve importá-los para o processo do utente, por DICOM se o equipamento der acesso, ou por exportação dos ficheiros do fabricante, e permitir compará-los ao longo do tempo. A importação depende do modelo e do formato de cada equipamento, e avaliamo-la caso a caso.

  • Comparação temporal: lado a lado, a mesma imagem ou o mesmo valor em várias datas.
  • Valores numéricos: por exemplo, a espessura das fibras nervosas da retina e a área do anel neuroretiniano, em gráfico por olho.
  • Relatórios do equipamento ligados à consulta que os pediu.
Espessura média das fibras nervosas da retina, ao longo de cinco anos
faixa de referência do equipamento (exemplo)7080901001102022202320242025202696959695949592898683ODOE
Uma descida lenta só se vê quando se comparam exames. O sistema guarda os relatórios numéricos de cada exame e desenha a evolução, e o médico decide se a variação é clinicamente relevante, tendo em conta a variabilidade do equipamento.
Exemplo hipotético, em micrómetros e com valores fictícios de um doente fictício. O gráfico junta os valores numéricos de cada OCT, e a faixa verde é apenas ilustrativa, porque a referência depende do equipamento.

Prescrições de óculos e de lentes de contacto

  • Histórico de graduações por olho (esférico, cilíndrico, eixo e adição), com a data, que a clínica deve conservar e o doente pode pedir.
  • Ótica integrada: stock de armações e lentes, receita e distância interpupilar, pedidos ao laboratório e venda, ligados ao processo.
  • Lentes de contacto: prescrição, adaptação, período de experimentação e lembrete de revisão periódica, muitas vezes esquecida.

Cirurgia e lentes intraoculares

O planeamento da cirurgia de catarata começa pela biometria, que mede o comprimento do olho para calcular a potência da lente intraocular (LIO), e pela escolha do modelo (monofocal, multifocal ou tórica). O cálculo é do médico e do biómetro. O software regista a biometria, a LIO escolhida, o lote, o relatório operatório e os implantes no processo clínico.

  • Rastreabilidade do implante: a LIO é um dispositivo médico implantável, regulado pelo Regulamento (UE) 2017/745, que prevê o identificador do dispositivo, o cartão de implante e a notificação de incidentes. O sistema liga o lote ao doente e ao olho e permite pesquisar por lote se houver uma recolha. Confirme com o fabricante e o INFARMED o que registar.
  • Lista de espera cirúrgica: prioridade clínica, pré-operatório (análises, avaliação anestésica quando necessária), agendamento no bloco e aviso da data ao doente.
  • Relatório operatório e envio ao médico assistente.
Da etiqueta da lente ao doente: rastreabilidade do implante
Lente intraocularEtiqueta do implante
ModeloMonofocal, acrílica hidrofílica
Potência+21,5 D
LoteL-74120
Validade03/2028
Etiqueta lida na salaO lote entra na ficha da cirurgia
Ligada ao doente e ao olhoOD, 12/10/2026, cirurgião responsável
Cartão de implanteCom os dados do dispositivo, para entregar ao doente
Se o fabricante recolher o lote L-74120Pesquisa: 6 doentes, com contacto e data da cirurgia
Exemplo hipotético, com dados fictícios e um código de barras ilustrativo. O lote da lente fica ligado à cirurgia e ao doente, e uma pesquisa por lote diz quais os doentes a contactar se houver uma recolha.

Rastreio e programas de saúde pública

  • Retinopatia diabética: o rastreio com retinografia segue o fluxo de cada programa: sessões sem consulta individual, retinografias por ortoptistas, classificação das imagens, relatório ao médico de família. Confirme com a ARS ou a entidade promotora os registos e as comunicações que se aplicam à sua clínica.
  • Rastreio visual em crianças: avaliação por ortoptistas, referenciação dos positivos e aviso às famílias. O software gere turmas de rastreio e processa os resultados em volume.
  • Apoio por inteligência artificial: há ferramentas de apoio à classificação de imagens, a usar sob supervisão médica. A escolha e o enquadramento regulatório são decisões da clínica.

Faturação, ADSE e seguros

  • Convenções: a faturação ao SNS, à ADSE (convencionado ou livre) e a outras entidades segue as tabelas, os códigos e as regras de submissão de cada uma, que o software deve respeitar. Os atos cirúrgicos incluem anestesia, implantes e material.
  • Seguros de saúde: autorizações prévias, faturas no formato de cada seguradora e controlo de pagamentos. Num exemplo que fizemos para uma clínica, fictícia, a receção confirma a apólice e a tabela da convenção no check-in e o valor a pagar aparece logo.
  • IVA: as consultas e os atos médicos estão em regra isentos ao abrigo do artigo 9.º do CIVA. O enquadramento da venda de óculos e de lentes depende do tipo de produto, por isso valide a configuração com o contabilista.
  • Faturação certificada: veja o guia de faturação eletrónica em Portugal.

RGPD e arquivo de imagem médica

Os dados e as imagens de uma clínica de oftalmologia são dados de saúde (artigo 9.º do RGPD). As retinografias e os OCT podem permitir identificar a pessoa, por isso o acesso deve ser controlado e registado. Vale também para entregar resultados: no mesmo exemplo, o utente recebe um aviso sem dados clínicos e abre o relatório na área reservada com código.

  • Conservação: os prazos de conservação dos processos e das imagens dependem da legislação e das orientações aplicáveis. Confirme-os com o encarregado de proteção de dados ou um jurista e configure o arquivo.
  • Volume: os exames de imagem ocupam muito espaço, e um doente com glaucoma acumula dezenas. O sistema deve arquivar com segurança e dar acesso rápido, sem alterar o valor diagnóstico das imagens.
  • Acesso remoto: ver imagens fora da clínica exige autenticação reforçada e registo de todos os acessos.
  • Fundamento do tratamento: para a prestação de cuidados, o consentimento nem sempre é o fundamento certo, e o encarregado de proteção de dados ajuda a decidir.

Indicadores úteis

  • Produção por equipamento: exames por OCT, retinógrafo e campímetro, para avaliar o investimento.
  • Do rastreio à consulta: a percentagem de utentes rastreados que são referenciados e vêm à consulta.
  • Tempo de espera para cirurgia eletiva: por tipo de cirurgia e por entidade financiadora.
  • Faltas e cancelamentos: por tipo de consulta. No mesmo exemplo, o site mostra só as vagas reais de cada especialidade e o utente recebe confirmação e lembrete na véspera. Veja o guia de software de agendamento.

Prateleira ou à medida

  • Só consulta: para agenda, ficha e faturação certificada, recomendamos um programa de clínica pronto.
  • Equipamentos à parte: se os relatórios do OCT ficam em pastas soltas, à medida pode trazê-los para o processo.
  • Cirurgia: se precisa de pesquisar doentes por lote de LIO e o programa não o faz, é caso para à medida.
  • Rastreios e ótica: turmas de rastreio e stock de ótica ligados ao processo raramente vêm prontos.

Quanto custa

  • Automação pontual (lembretes, avisos de revisão de lentes de contacto, alertas de lista de espera): a partir de €300.
  • Painel com produção por equipamento, tempos de espera e faturação por entidade: a partir de €500.
  • Aplicação web com ficha oftalmológica, agenda, cirurgia, rastreabilidade de implantes e faturação: a partir de €800.
  • App mobile para o médico consultar imagens e fichas no consultório ou no bloco: a partir de €2.500.
  • Manutenção mensal: a partir de €50.
  • Integrações com OCT, retinógrafos e outros equipamentos, com sistemas de convenções e com faturação certificada, e sistemas completos para clínicas com bloco operatório: orçamentamos caso a caso. O preço final fixa-se na proposta.

Ao avaliar um fornecedor, pergunte: como entram as imagens e os relatórios do nosso OCT e do retinógrafo, e em que formato? O sistema compara o mesmo parâmetro de cada olho em várias datas? O lote da lente fica ligado ao doente e pesquisável? Quem acede às imagens, de onde e com que registo? Onde ficam os dados, e como se exportam se mudarmos de sistema?

Começamos pelo processo mais repetitivo e ligamos aos equipamentos e programas que já usa se derem acesso, ou por exportação. Contacte-nos para uma conversa sem compromisso, com estimativa de custo e prazo. Veja também as soluções para saúde e os exemplos por setor.