Gerir floresta em Portugal é gerir muitos prédios pequenos, de muitos proprietários, com planos que se medem em anos e obrigações que mudam com a estação. Uma empresa de gestão florestal tem de saber, para cada parcela, que plano está em vigor, o que está por fazer, o que foi cortado e vendido, e o que falta limpar antes do verão. Este guia é para quem dirige uma empresa de gestão florestal, de silvicultura ou de exploração de madeira, cortiça ou biomassa, ou a entidade gestora de uma Zona de Intervenção Florestal (ZIF), e está a decidir entre um programa de prateleira e um feito à medida. Escrevemos este guia como quem constrói este tipo de software e, onde temos, mostramos um exemplo em vídeo. Para explorações agrícolas, veja o guia de software de gestão agrícola.

Propriedades, parcelas e planos de gestão

A base é a ficha de cada propriedade: proprietário, prédios e parcelas com a área e a espécie dominante, o Plano de Gestão Florestal (PGF) em vigor com as ações previstas por ano, e o contrato de gestão. Numa ZIF, junta-se a adesão de cada proprietário e as regras da entidade gestora. O regime das ZIF vem do Decreto-Lei n.º 127/2005, com alterações posteriores; confirme a versão em vigor. Com isto num mapa, vê-se de relance o que o plano pede este ano e o que ficou para trás:

Parcelas de um proprietário e o estado do plano de gestãoP-01Pinheiro bravo · 9,4 haP-02Eucalipto · 12,1 haP-03Sobreiro · 14,8 haP-04Pinheiro bravo · 10,6 haP-05Mato · 6,2 haP-06Eucalipto · 8,3 haFaixa em redor da casa
Plano em diaAção prevista este anoAção em atrasoSem ação prevista
P-04 · em atrasoDesbaste previsto no PGF para 2025Não executado. O sistema mostra-o ao técnico e ao proprietário.
P-05 · faixa de gestão de combustívelLimpeza por fazer junto à casa vizinhaLargura e prazo a confirmar com o município, segundo o SGIFR.
O mapa é a ficha. Cada parcela liga-se ao proprietário, ao PGF e às intervenções; a cor mostra o que o plano pede este ano e o que ficou para trás. As parcelas, as áreas e as ações do exemplo são fictícias.
Exemplo hipotético de seis parcelas, com espécies, áreas e ações fictícias.
  • Parcelas com geometria, importadas da cartografia que a empresa já usa, e não desenhadas de novo.
  • PGF por versão, com as ações por ano e a parcela a que se aplicam.
  • Intervenções executadas: data, operação (plantação, limpeza, desbaste, poda, corte), área, equipa ou prestador e custo. Num exemplo que fizemos para uma exploração agrícola, fictícia, o aplicador faz o registo do tratamento no telemóvel, num olival sem rede, e o registo segue quando houver rede. Uma equipa florestal pode registar assim.
  • Relatórios aos proprietários com o que foi feito, o que foi vendido e o saldo.

Cortes, manifesto e cadeia de custódia

Cada corte, desbaste ou arranque de árvores de espécies florestais tem de ser declarado previamente ao ICNF, no manifesto de corte (Decreto-Lei n.º 31/2020, através da plataforma SiCorte). A obrigação é do operador que faz o corte, com uma dispensa para pequenas quantidades destinadas a autoconsumo. Alguns municípios pedem também o comprovativo. Seguem-se o parqueamento, o transporte e a entrega, e o lote deve manter a mesma identificação em todos os passos.

Um lote de madeira, do corte à fábrica
1CorteParcela P-02 · eucaliptoManifesto de corte no SiCorteMC-2026-0418
2ParqueamentoCarregadouro junto ao caminhoEstimativa do lote170 t
3Transporte3 cargas · camião 12-AB-34Documento de transporte por carga3 guias
4Receção na fábricaPesagem à entradaPeso medido158 t
5FaturaVenda ao compradorDeclaração na faturaFSC 100% · certificado CoC
Conciliação do loteEstimado 170 t · pesado 158 t · diferença −7 %
A diferença fica registada no lote e no pagamento ao proprietário, segundo o contrato, e não se perde entre folhas.
Um lote tem o mesmo número do corte à fatura. O manifesto, as cargas, a pesagem e a declaração de certificação ficam ligados ao lote, o que dá a cadeia de custódia que a certificação pede e a prova da origem da madeira. Os números, as matrículas e as quantidades do exemplo são fictícios.
Exemplo hipotético de um lote de eucalipto, com documentos e quantidades fictícios.

Se a empresa tem certificação de gestão florestal ou de cadeia de custódia (FSC ou PEFC), essa identificação contínua é o que permite declarar a madeira como certificada na fatura e responder a uma auditoria. Nas zonas afetadas pelo nemátodo da madeira do pinheiro há regras próprias para o corte, o transporte e o tratamento da madeira de coníferas; confirme-as no ICNF antes de definir o registo.

Prevenção de incêndios e calendário de operações

O Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais (Decreto-Lei n.º 82/2021) define, entre outras coisas, faixas de gestão de combustível: em regra, uma faixa em redor dos edifícios em espaço rural e outra, mais larga, em redor dos aglomerados populacionais, com larguras e prazos que dependem do tipo de território e do que o município fixar. Define também o período crítico e as restrições ao uso de máquinas e ao fogo, que podem mudar de ano para ano e com o risco diário. O software deve guardar estas regras como parâmetros com data e cruzá-las com o plano de operações:

Calendário de operações e período de maior risco
JFMAMJJASOND
Plantação
Limpeza de mato e faixas
Descortiçamento
Desbaste e corte
Fogo controlado
Período de maior risco de incêndio (exemplo)
Pedido: corte com motosserra na P-04 a 20 de agostoCai no período de maior risco do exemplo. O sistema avisa e pede ao técnico que confirme as restrições em vigor para esse dia e local antes de marcar.
As operações planeiam-se contra o calendário do risco. O período crítico e as restrições a máquinas, queimas e fogo controlado são fixados pelas autoridades e podem mudar de ano para ano e com o risco diário; o software guarda-os como parâmetros e avisa quando uma operação colide. As épocas do exemplo são indicativas.
Exemplo hipotético de épocas de operação e de um período de risco, com datas indicativas.

As larguras, os prazos e as restrições do exemplo são indicativos: confirme sempre o texto em vigor e os avisos do município e das autoridades para cada local. Num exemplo que fizemos para uma empresa de ambiente e sustentabilidade, fictícia, as condicionantes de uma licença passam a um calendário de obrigações, com aviso antes da próxima. As ações do PGF e os prazos das faixas podem seguir-se assim.

Cortiça, biomassa e caça

  • Cortiça: por parcela de montado, a data e a quantidade de cada extração e o ano em que a árvore volta a poder ser descortiçada. A lei de proteção do sobreiro e da azinheira (Decreto-Lei n.º 169/2001) fixa um intervalo mínimo entre descortiçamentos, em regra de nove anos; confirme as regras e exceções aplicáveis. Veja também o guia da indústria corticeira.
  • Biomassa: contratos de fornecimento a centrais ou fábricas de pellets, quantidades entregues, humidade quando o contrato a prevê, e pagamento.
  • Zonas de caça: plano de ordenamento e exploração cinegética, épocas e licenças, se a empresa as gere.

Faturação e IVA

A empresa fatura serviços de silvicultura por hectare ou por operação, vendas de madeira por tonelada ou metro cúbico, cortiça por arroba ou quilograma, biomassa por tonelada, e, se for o caso, a gestão por conta de proprietários. O IVA difere conforme o bem, o serviço e quem vende; define-se com o contabilista. As faturas emitem-se por programa certificado; veja o guia de faturação eletrónica em Portugal. Para cooperativas e associações de produtores, há também o guia de software para cooperativas agrícolas.

Indicadores que vale a pena seguir

  • Execução do PGF: ações previstas e feitas, por parcela e por proprietário.
  • Faixas de gestão de combustível por limpar antes do prazo.
  • Rendimento por hectare de madeira, cortiça e biomassa, descontados os custos. Num exemplo que fizemos para uma exploração com vinha, fictícia, o painel mostra o custo por hectare e por quilo de uva da campanha; o rendimento da floresta pode seguir-se num painel assim.
  • Diferença entre o estimado e o pesado em cada lote vendido.
  • Área ardida na área gerida, quando a houver.

As metas são da empresa: com áreas pequenas e ciclos longos, comparar anos ou parcelas sem contexto engana.

Prateleira ou à medida

  • Poucas propriedades, um só dono, operações simples: recomendamos um programa de prateleira.
  • Muitos proprietários, com relatório e saldo para cada um, ou uma ZIF: o caso tende para à medida.
  • Lotes seguidos do corte à entrega com a mesma identificação: veja se o programa o faz como a empresa trabalha.
  • Cartografia própria a reaproveitar.
  • Equipas no terreno sem rede.

Quanto custa

  • Automação pontual (lembrete de ações do PGF, aviso de faixa por limpar, relatório mensal ao proprietário): a partir de €300.
  • Dashboard com execução dos planos, vendas e rendimento por hectare: a partir de €500.
  • Aplicação web com propriedades, parcelas em mapa, PGF, intervenções e lotes de madeira: a partir de €800.
  • App mobile para registar intervenções e cargas no terreno, também sem rede: a partir de €2.500.
  • Manutenção mensal: a partir de €50.
  • Sistema completo com cartografia, faturação certificada e integrações, se os sistemas derem acesso: orçado caso a caso. O preço final fixa-se na proposta.

Imagens de drone e dados LiDAR processam-se em ferramentas especializadas; o software guarda os resultados na parcela.

O que perguntar a um fornecedor

  • Consigo importar as parcelas da minha cartografia, e exportá-las se mudar?
  • Como guarda as versões do PGF e as ações por parcela e por ano?
  • Como liga um lote de madeira desde o manifesto de corte até à fatura?
  • Como guarda as regras do SGIFR e do período crítico, e quem as atualiza?
  • A app funciona no terreno sem rede?
  • Quais são os custos ao fim de três anos?

Por onde começar

Comece pelas parcelas no mapa e pelas ações do PGF, com o registo das intervenções no terreno. O lote de madeira com cadeia de custódia e os relatórios aos proprietários vêm depois.

Na Soluções à Medida começamos pelo processo mais repetitivo e ligamos aos programas que já usa por API, se derem acesso, ou por exportação. Fale connosco e conte como trabalha. Veja também as soluções para agricultura, as soluções para ambiente e sustentabilidade e os exemplos por setor.