Numa exploração agrícola, o escritório cresce com a dimensão e com as regras: o Pedido Único ao IFAP todos os anos, o registo de cada aplicação de produtos fitofarmacêuticos, o plano de fertilização nas zonas vulneráveis, a água de rega, os cadernos da certificação, e a pergunta que a contabilidade raramente responde: quanto custa produzir um hectare de cada cultura. Este guia é para quem gere uma exploração agrícola ou uma empresa agrícola em Portugal.
Escrevemos este guia como quem constrói software para explorações agrícolas, e onde temos um exemplo em vídeo descrevemos o que se vê. Cobre o que o software deve tratar, que regras interessam, como decidir entre uma plataforma pronta e um sistema à medida, e quanto custa.
O que a exploração tem de registar
- Pedido Único (IFAP): a declaração anual das parcelas e das culturas sobre o parcelário (iSIP), no âmbito do PEPAC. O período de candidatura abre na primavera e, nos últimos anos, terminou a meio de maio, com uma janela posterior para alterações. Confirme o calendário de cada ano no portal do IFAP.
- Aplicações de produtos fitofarmacêuticos: o utilizador profissional regista cada aplicação (parcela, cultura, produto, dose, data) e guarda os registos, em regra durante pelo menos três anos (Lei n.º 26/2013, artigo 17.º). Quem aplica precisa de habilitação válida.
- Registo eletrónico: o Regulamento de Execução (UE) 2023/564, alterado pelo Regulamento (UE) 2025/2203, passa estes registos para formato eletrónico e acrescenta dados, como o estado fenológico. Os Estados-Membros podem aceitar registos em papel para utilizações anteriores a 1 de janeiro de 2027. Confirme junto da DGAV como se aplica em Portugal.
- Fertilização nas zonas vulneráveis: nas explorações situadas em zonas vulneráveis aos nitratos, o programa de ação (Portaria n.º 259/2012) obriga a um plano de fertilização com limites de azoto por cultura e a registos que a CCDR pode controlar.
- Rastreabilidade: o produtor primário é um operador do setor alimentar e tem de saber a quem vendeu cada lote e que fatores de produção usou (Regulamento (CE) n.º 178/2002).
- Pecuária: quem também tem animais junta o licenciamento da atividade pecuária (REAP) e a identificação e movimentação dos animais. Esses temas ficam fora deste guia.
Este resumo vem de fontes públicas e de conhecimento geral, e não substitui o técnico da sua organização de agricultores, a DRAP ou um jurista. Em todos estes casos, o software prepara e guarda os registos; a submissão faz-se nos portais oficiais, pelo agricultor ou pelo técnico.
Parcelas: a base de tudo
O ponto de partida é o mapa da exploração: cada parcela com o número no parcelário, a área, a cultura de cada campanha, o regadio, as condicionantes (zona vulnerável, área protegida, linha de água) e o histórico de operações. Tudo o resto aponta para aqui: o Pedido Único, o caderno de campo, o plano de fertilização e o custo por cultura.
- Importar as parcelas a partir dos ficheiros do parcelário, em vez de as desenhar à mão.
- Cultura por campanha, com a rotação dos anos anteriores à vista.
- Preparar o Pedido Único: conferir áreas e culturas antes da candidatura, e guardar o que foi declarado em cada ano. A submissão continua a ser feita no portal do IFAP ou por uma entidade reconhecida.
- Avisos de prazo para o Pedido Único, para as alterações e para os compromissos que a exploração assumiu.
Caderno de campo e produtos fitofarmacêuticos
O caderno de campo regista as operações de cada parcela: mobilizações, sementeiras, fertilizações, aplicações, regas e colheitas. Para as aplicações, o software deve guardar o produto com o número de autorização, a dose e o volume de calda, o estado fenológico, quem aplicou (com a habilitação) e com que equipamento. No exemplo que fizemos para uma exploração fictícia, o aplicador regista o tratamento no telemóvel, na própria parcela: na Parcela 7, um olival, a parcela e a cultura já vêm preenchidas, o produto escolhe-se da lista do armazém e, sem rede, o registo fica guardado no aparelho e segue para o caderno de campo quando houver cobertura.
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- Intervalo de segurança: o sistema pode guardar o intervalo do rótulo para cada produto e cultura e travar uma colheita antes de ele terminar. No mesmo exemplo, as colheitas planeadas aparecem ao lado dos tratamentos: a apanha da Parcela 7, marcada dentro do intervalo, gera um aviso, a data passa para 17/11 e o registo das aplicações da campanha sai em CSV.
- Habilitações e equipamentos: aviso quando a habilitação de um aplicador ou a inspeção de um pulverizador está perto de caducar.
- Stock de produtos: a aplicação dá baixa do armazém e liga o lote do produto à parcela, o que permite saber logo onde foi usado um lote retirado do mercado.
- Exportação para a certificação: os relatórios que a entidade certificadora pede em modo de produção biológico, produção integrada ou GLOBALG.A.P.
Fertilização e rega
Nas zonas vulneráveis, o plano de fertilização define quanto azoto pode cada cultura receber. Com as fertilizações registadas no caderno de campo, o sistema pode somar o que já foi aplicado em cada parcela e avisar antes de se passar o limite. Fora dessas zonas, a mesma conta ajuda a acertar as doses.
Na rega, quem está num aproveitamento hidroagrícola (como o Alqueva, gerido pela EDIA, ou os perímetros das associações de regantes) paga a água por volume e tem dotações para cumprir. Ler os contadores ou as sondas de humidade do solo por setor de rega, se o equipamento der acesso ou por exportação, mostra o consumo de cada parcela e cultura, que entra no custo por hectare.
Custo por cultura e por parcela
A pergunta que mais decisões muda é quanto custa produzir um hectare de cada cultura. Se cada operação no caderno de campo levar as horas de trabalho, as horas de máquina, os produtos gastos e a água, o custo por parcela sai sem trabalho extra. Junte-lhe a produção e o preço de venda, e cada cultura mostra a sua margem. No exemplo que preparámos para uma exploração com vinha, fictícia, o painel soma os custos por hectare e por quilo de uva, mostra porque os fitofármacos pesaram mais do que na campanha anterior e liga cada nova colheita à parcela e ao lote.
- Mão de obra por operação, incluindo trabalhadores sazonais e prestadores de serviços.
- Máquinas com custo por hora (combustível, manutenção, amortização).
- Comparação entre campanhas e entre parcelas da mesma cultura.
Sensores, satélite e agricultura de precisão
Um software à medida pode juntar dados que hoje estão em sítios diferentes: a estação meteorológica da exploração, as sondas de humidade do solo, os índices de vegetação (como o NDVI) a partir de imagens de satélite ou de drone, e os ficheiros dos equipamentos com GPS para aplicação a taxa variável. O ganho depende da exploração. A nossa sugestão é medir primeiro: comparar uma campanha com aplicação uniforme com outra a taxa variável na mesma parcela, antes de investir em mais equipamento.
Plataforma pronta ou à medida
Há plataformas de gestão agrícola e cadernos de campo digitais que servem bem muitas explorações com culturas e circuitos comuns. Se é o seu caso e a plataforma cobre os registos que tem de guardar, a nossa recomendação é começar por aí. O à medida compensa quando se reconhece num destes pontos:
- Várias atividades que nenhuma plataforma junta: produção, transformação, venda direta, agroturismo.
- Equipamentos e sensores de marcas diferentes que precisa de ler no mesmo sítio.
- Custo por parcela com regras próprias, como a forma de repartir máquinas e mão de obra.
- Ferramentas que já usa e não falam entre si: aí pode bastar a ligação, por API se der acesso ou por exportação.
Se nenhum destes pontos lhe diz muito, uma plataforma pronta deve chegar.
Quem entrega a produção numa cooperativa encontra no guia de software para cooperativas agrícolas o outro lado da entrega. Quem transforma o que produz pode ver os guias de rastreabilidade alimentar e HACCP e de software para adegas.
Quanto custa
- Automação pontual (aviso de prazos do Pedido Único, alerta de habilitação ou inspeção a caducar, relatório mensal de custos): a partir de €300.
- Dashboard com custos por cultura e por parcela, consumos de água e stock de produtos: a partir de €500.
- Aplicação web com parcelas, caderno de campo, stock de produtos e custos: a partir de €800.
- App mobile para registar operações no campo, mesmo sem rede: a partir de €2.500.
- Manutenção mensal: a partir de €50.
- Integração com sensores, estações meteorológicas, equipamentos com GPS, faturação certificada e sistemas completos: orçamento personalizado, caso a caso.
São valores de partida: o preço final fixa-se na proposta.
O que perguntar a um fornecedor
- Como importo as parcelas do parcelário, e como fica guardada a cultura de cada campanha?
- O caderno de campo funciona no telemóvel sem rede? Que dados de cada aplicação guarda?
- O sistema conhece o intervalo de segurança e trava uma colheita antes do tempo?
- Como soma o azoto aplicado por parcela face ao plano de fertilização?
- Exporta os registos no formato que a minha entidade certificadora pede?
- Como exporto os dados se mudar de fornecedor, e quais são os custos ao fim de três anos?
Por onde começar
Costumamos começar pelo mapa de parcelas e pelo caderno de campo no telemóvel: são a base das obrigações e dão os dados para tudo o resto. O custo por cultura vem a seguir, quando já há uma campanha registada. Sensores e agricultura de precisão fazem sentido depois disso.
Na Soluções à Medida fazemos software para explorações agrícolas, adaptado às suas culturas e ao seu modo de trabalhar, e orçamos caso a caso. Contacte-nos para uma conversa sem compromisso. Veja também as soluções para agricultura, as de alimentação e bebidas, os guias de gestão de stocks e de transporte e logística, e os exemplos por setor.