Numa adega, o produto muda de forma e de recipiente várias vezes antes de chegar à garrafa: uva, mosto, vinho em cuba, vinho em barrica, lote, garrafa. Em cada passagem há perdas, adições e análises, e no fim do ano o IVV pede declarações que têm de bater com o que está na adega. Uma folha de cálculo aguenta uma vindima pequena; com vários lotes, castas e recipientes, deixa de chegar. Este guia é para quem gere uma adega, uma quinta vitivinícola ou um produtor de vinho em Portugal e hesita entre um programa de prateleira e um feito à medida. Escrevemo-lo como quem constrói este software: cobre regras, critérios de escolha e custo, e onde temos, mostramos um exemplo em vídeo. Se é uma cooperativa, veja também o guia de software para cooperativas agrícolas; para outras bebidas, o de produtoras e distribuidoras de bebidas.

Vindima: entrada de uva

A vindima concentra num mês o trabalho do ano. Cada entrada de uva deve ficar registada no momento da descarga, porque é a origem de tudo o que vem depois:

  • Origem: parcela (como consta no registo vitícola), casta e, numa cooperativa, o associado que entrega, com talão de entrega.
  • Peso da balança, sem passar por papel.
  • Qualidade: grau provável, estado sanitário e observações.
  • Destino: em que cuba ou lote entrou, para a uva de parcelas diferentes poder ser vinificada em separado.

No exemplo que fizemos para uma adega fictícia, cada carga fica com o peso da báscula, a parcela, a casta e o grau provável. A declaração de colheita e produção ao IVV parte destes dados, que o software prepara e guarda; a declaração faz-se na plataforma oficial, pela adega. As parcelas têm de estar atualizadas no registo vitícola para a declaração ser aceite, por isso convém usar a mesma identificação.

Vinificação e cubas

Durante a fermentação, o enólogo acompanha cada cuba: densidade, temperatura, remontagens, adições enológicas (leveduras, nutrientes, dióxido de enxofre, colas) e trasfegas. O software deve guardar isto por cuba e por lote, com quem fez e quando, e avisar quando um valor sai do limite que o enólogo definiu.

Cubas da adega: volume, fase e análisesC16.800 LC29.900 LC30 LC410.400 L!C59.100 L
C1Touriga Nacional 2025
6.800 de 8.000 L
FermentaçãoDens. 1.012 · 26 °C
C2Arinto 2025
9.900 de 10.000 L
EstágioSO2 livre 32 mg/L
C3—
0 de 8.000 L
Vazia e lavadaLavagem registada ontem
C4Tinta Roriz 2025
10.400 de 12.000 L
FermentaçãoDens. 1.030 · 31 °C
C5Lote tinto 2024
9.100 de 10.000 L
Estágio, falta atestarEspaço vazio: 9 %
C4: 31 °C, acima do limite de 28 °C definido pelo enólogoO alerta vai para o telemóvel de quem está de turno, e a ação (arrefecimento, remontagem) fica registada no histórico da cuba.
Cada cuba sabe o que tem dentro. Lote, volume, fase e últimas análises, com o histórico de adições enológicas e de trasfegas. Os limites de temperatura e as frequências de análise são do enólogo; o software regista e avisa. As cubas, os lotes e os valores do exemplo são fictícios.
Exemplo hipotético de cinco cubas durante a vindima, com lotes e análises fictícios.
  • Adições enológicas com produto, lote do produto, quantidade e motivo, porque algumas práticas e doses têm limites e condicionam a rotulagem.
  • Análises do laboratório próprio ou externo, ligadas à cuba e à data.
  • Trasfegas e lotações, com os volumes de origem e de destino. Na adega fictícia, a enóloga passa 5.000 litros da cuba 3 para a cuba 1 e a composição do lote atualiza-se.
  • Barricas: localização, número de utilizações, tosta, lote que contêm e datas de atesto.

Conta-corrente: o que entra, o que sai e o que se perde

A pergunta que o IVV, a contabilidade e o próprio produtor fazem é a mesma: quanto vinho existe, de que lote, em que recipiente, e para onde foi o resto. Responder a isso exige registar cada movimento com volume e justificar as perdas.

Conta-corrente de um lote, da vindima à garrafa
Uva entradaTouriga Nacional, parcela P-07
12.000 kg
− Engaço e bagaço: 3.600 kg
Mostoprensagem e escorrimento
8.400 L
− Borras: 600 L
Vinho limpoapós fermentação e trasfega
7.800 L
− Evaporação na barrica: 117 L
Depois do estágiometade em barrica, metade em cuba
7.683 L
− Filtração e linha: 3 L
Engarrafado10.240 garrafas de 0,75 L
7.680 L
A conta-corrente do lote fechaEntradas, saídas e perdas justificadas batem com o stock, por lote e por recipiente. É a mesma informação que alimenta as declarações ao IVV.
Cada litro tem origem e destino. O sistema regista cada passagem (vindima, prensagem, trasfega, estágio, lotação, engarrafamento) com volume e recipiente, e obriga a justificar as diferenças. A barra da uva está em quilos e as restantes em litros; as quantidades, os rendimentos e as perdas do exemplo são fictícios.
Exemplo hipotético de um lote de vinho tinto, com quantidades e perdas fictícias.

Esta conta-corrente alimenta as duas declarações anuais ao IVV, feitas no SIVV: a declaração de colheita e produção, em regra entre outubro e novembro, e a declaração de existências, com referência a 31 de julho e entrega no fim do verão. A entrega fora de prazo pode dar coima. As datas mudam de campanha para campanha, por isso confirme-as no IVV e não as fixe no software. A submissão faz-se no SIVV, pela adega; o software prepara os números e guarda os registos.

Engarrafamento e rotulagem

No engarrafamento, cada lote de garrafas fica ligado ao lote de vinho e aos lotes dos materiais (garrafa, rolha, cápsula, rótulo). É isto que permite, se houver um problema, saber que garrafas retirar. No nosso exemplo, os litros da cuba dão as garrafas do lote e as matérias secas saem do stock.

A rotulagem mudou: os vinhos produzidos a partir de 8 de dezembro de 2023 têm de indicar a lista de ingredientes e a declaração nutricional (Regulamento (UE) 2021/2117). O valor energético pode ficar no rótulo físico e o resto ir para uma página por código QR, e os alergénios (como os sulfitos) continuam no rótulo físico. O software pode gerar essa informação a partir da ficha do lote, incluindo as adições enológicas que entram como ingredientes.

Rótulo de um vinho: as menções que o lote tem de levar
Rótulo
QUINTA EXEMPLO
DOURO
Denominação de Origem Protegida
Tinto 2024
13,5 % vol75 cl
Contrarrótulo

Vinho tinto produzido e engarrafado por Quinta Exemplo, Lda., Portugal.

Contém sulfitos.

Ingredientes e informação nutricionalPor 100 ml: 83 kcal
L 24TN07
Selo de garantia
1
Denominação de origem e categoriaDOP Douro, tinto
2
Teor alcoólico e volume13,5 % vol · 75 cl
3
Alergénios no rótulo físico«Contém sulfitos»
4
Valor energético no rótulo83 kcal por 100 ml
5
Ingredientes e declaração nutricional completaPor QR, em página sem fins comerciais
6
Engarrafador, país e loteQuinta Exemplo, Portugal, L 24TN07
7
Selo de garantia da entidade certificadoraQuando aplicável à DO
O rótulo é gerado a partir da ficha do lote, não escrito à mão. Os vinhos produzidos a partir de 8 de dezembro de 2023 têm de indicar ingredientes e declaração nutricional; o valor energético fica no rótulo e o resto pode ir para uma página por QR. Os alergénios ficam sempre no rótulo físico. A quinta, os valores e o lote são fictícios; confirme as menções da sua DO com a entidade certificadora.
Exemplo hipotético de rótulo e contrarrótulo, com marca e valores fictícios.

Nas denominações de origem e indicações geográficas, o caderno de especificações de cada região define castas, rendimentos e práticas, e a entidade certificadora (a comissão vitivinícola regional ou, no Douro e Porto, o IVDP) controla e, quando aplicável, atribui os selos de garantia. O software pode controlar o stock de selos por lote e avisar de lotes que fogem às regras da DO, mas a certificação é da entidade.

Impostos especiais e circulação

O vinho é uma bebida alcoólica sujeita ao regime dos impostos especiais de consumo. Em Portugal, o vinho tranquilo tem taxa zero, mas isso não dispensa as regras de circulação: muitos produtores funcionam como depositários autorizados, com entreposto fiscal e documentos eletrónicos de acompanhamento (e-DA) nas expedições em suspensão. Os pequenos produtores de vinho têm um regime simplificado (artigo 81.º do Código dos IEC). Que regime se aplica a cada adega e que documentos acompanham cada envio (mercado nacional, outros Estados-Membros, exportação) deve ser confirmado com a AT e com o despachante. O software guarda o regime e os documentos de cada saída; os e-DA e as declarações fazem-se nas plataformas oficiais, pela adega.

Vendas, exportação e enoturismo

Indicadores que vale a pena seguir

  • Rendimento por parcela e casta (kg de uva por hectare, litros de mosto por kg).
  • Perdas por fase e por lote.
  • Custo por garrafa por lote, com uva, enologia, barricas, materiais e mão de obra.

Prateleira ou à medida

A nossa recomendação: com uma só marca, poucos lotes por colheita e sem compra de uva a terceiros, um programa de prateleira com faturação certificada chega. À medida faz sentido quando:

  • Compra uva a vários viticultores e paga por casta e grau, com a tabela de cada campanha.
  • Faz muitos lotes e lotações e precisa que a conta-corrente feche por lote e por recipiente.
  • Os dados estão espalhados pela balança, sondas, faturação e loja, e quer juntá-los por API, se der acesso, ou por exportação.
  • Tem enoturismo ou loja e quer ver visitas, vendas e stock no mesmo sítio.

Quanto custa

  • Automação pontual (alerta de temperatura de cuba, aviso de atesto, lembrete das declarações ao IVV): a partir de €300.
  • Dashboard com stock por lote, rendimentos, perdas e vendas por canal: a partir de €500.
  • Aplicação web com entrada de uva, cubas e barricas, conta-corrente por lote e engarrafamento: a partir de €800.
  • App mobile para registar análises e operações na adega, também durante a vindima: a partir de €2.500.
  • Manutenção mensal: a partir de €50.
  • Sistema completo com ligação a balanças, sondas, faturação certificada e loja online: orçamento personalizado, caso a caso.

O preço final fixa-se na proposta. Antes de pedir propostas, veja onde perde mais tempo hoje: a vindima em papel, as declarações refeitas à mão, os rótulos atualizados lote a lote.

O que perguntar a um fornecedor

  • Como prepara os números das declarações ao IVV a partir dos movimentos?
  • Como gera a informação de ingredientes e nutricional para o rótulo e a página do QR?
  • Como exporto os dados se mudar de fornecedor, e quais são os custos ao fim de três anos?

Por onde começar

Comece pela entrada de uva e pela conta-corrente por lote e por recipiente: é a base das declarações, do custo e da rastreabilidade. As cubas com alertas, a rotulagem e os canais de venda vêm a seguir.

Na Soluções à Medida fazemos software para adegas e produtores de vinho: começamos pelo processo mais repetitivo e orçamos caso a caso. Contacte-nos para uma conversa sem compromisso. Veja também as soluções para vinhos, o guia de rastreabilidade alimentar, o da indústria corticeira e os exemplos por setor.