Numa exploração de aquicultura ou numa unidade que compra peixe em lota, quase tudo se resume a lotes: quantos animais entraram, quanta ração comeram, quantos morreram, de que zona veio a amêijoa, para quem foi a sardinha. Quando isto vive em cadernos e folhas de cálculo, perde-se tempo e, numa inspeção ou numa retirada de produto, perde-se a prova. Este guia é para quem gere uma exploração de aquicultura (jaulas, tanques, viveiros de bivalves, pisciculturas) ou uma pequena unidade de transformação ou comércio de pescado em Portugal e hesita entre um programa de prateleira e um feito à medida. Escrevemos como quem constrói este tipo de software: o que deve fazer, que regras interessam, como decidir e quanto custa, com exemplos em vídeo de outros setores com lotes.
Um aviso sobre o âmbito. As frotas de pesca de maior dimensão e as organizações de produtores têm sistemas e exigências de certificação próprios, e o diário de pesca eletrónico tem de usar software reconhecido pelas autoridades. O que faz sentido desenvolver à medida, para uma PME, é a gestão à volta disso: lotes, rastreabilidade, qualidade e faturação.
Lotes de produção, alimentação e mortalidade
Na aquicultura, o lote é a unidade de gestão. Cada lote tem uma entrada (espécie, exemplares, peso médio, origem dos juvenis), uma unidade de produção e uma história diária. O software deve registar:
- Alimentação por lote e por dia, com o tipo e o lote da ração.
- Amostragens de peso, que permitem estimar a biomassa e calcular o índice de conversão alimentar (ração dada a dividir pela biomassa ganha).
- Mortalidade diária com a causa provável, e alertas quando ultrapassa o limiar que a exploração definir para a espécie.
- Transferências e calibragens entre unidades, sem perder a ligação ao lote de origem.
- Despescas e vendas, que fecham o lote.
Qualidade da água e tratamentos veterinários
Oxigénio dissolvido, temperatura, pH, salinidade e compostos azotados (amónia, nitritos) mudam o comportamento e o crescimento dos animais. Nas produções intensivas medem-se várias vezes ao dia. O software deve guardar as medições, manuais ou de sondas, e avisar quando saem dos intervalos definidos para a espécie, por exemplo suspendendo a alimentação de uma jaula com oxigénio baixo. Costumamos ligar às sondas e aos autómatos quando o equipamento dá acesso, ou ler os dados por exportação.
Os tratamentos veterinários têm de ficar registados com o medicamento, a dose, o lote e o intervalo de segurança antes da venda, ao abrigo do Regulamento (UE) 2019/6 sobre medicamentos veterinários. O software pode bloquear a despesca de um lote enquanto o intervalo de segurança não terminar.
Licenciamento das explorações
A instalação e a exploração de um estabelecimento de aquicultura dependem de um título de atividade aquícola, previsto no Decreto-Lei n.º 40/2017 e gerido pela DGRM. O título identifica o titular e o estabelecimento, e tem regras próprias de validade e renovação. O diploma já foi alterado: confirme a versão em vigor e as condições do seu título com a DGRM. O software deve guardar o título, a espécie e a capacidade autorizadas e as datas, e avisar antes de qualquer prazo.
Os estabelecimentos que preparam ou transformam produtos da pesca precisam também de aprovação sanitária, com as regras de higiene dos Regulamentos (CE) n.º 852/2004 e n.º 853/2004 e um plano HACCP. Confirme o enquadramento da sua unidade com a DGAV. Veja também o guia de rastreabilidade alimentar e HACCP digital.
Bivalves: zonas de produção e interdições
Para os bivalves (amêijoa, ostra, mexilhão, berbigão), o local de apanha decide o destino. O IPMA classifica as zonas de produção em classes A, B e C conforme a contaminação microbiológica: da classe A pode seguir para consumo direto, da B tem de passar por depuração ou outro tratamento, da C só por transposição prolongada ou transformação. O IPMA também interdita zonas temporariamente, por exemplo por biotoxinas. O software deve ligar cada lote à zona e à data de apanha, consultar o estado da zona e bloquear o que não pode seguir.
Da lota à banca: rastreabilidade e rotulagem
Para quem compra em lota (transformadores, grossistas, peixarias, restauração), o lote da primeira venda é o ponto de partida. As regras europeias de controlo das pescas (Regulamento (CE) n.º 1224/2009, alterado pelo Regulamento (UE) 2023/2842) exigem que a informação mínima de rastreabilidade acompanhe cada lote, e, segundo as fontes que consultámos, que essa informação passe a estar disponível em formato digital a partir de 2026 para os produtos frescos e congelados, com extensão posterior a preparações e conservas. Confirme as datas e os campos na versão consolidada do regulamento e com a DGRM.
Na venda ao consumidor, o Regulamento (UE) n.º 1379/2013 exige na etiqueta, entre outras informações, a denominação comercial e o nome científico, o método de produção, a zona de captura ou o país de produção, a categoria de arte de pesca e a indicação de descongelado, quando aplicável. O software pode imprimir a etiqueta a partir do lote, sem reescrever a informação à mão. Confirme os campos e as exceções com a ASAE.
Num exemplo que fizemos para uma empresa alimentar, fictícia, a responsável pesquisa o lote de farinha que o fornecedor reportou e o sistema mostra os 3 lotes de produção que o usaram e os clientes que os receberam, para retirar só esses. Com pescado, o ponto de partida pode ser o lote comprado em lota.
Diário de pesca e primeira venda
As embarcações abrangidas registam as capturas num diário de pesca eletrónico, que tem de usar uma aplicação aceite pelas autoridades, e a primeira venda faz-se em regra em lota, com a Docapesca no continente. Um software à medida não substitui nada disto. O que pode fazer é importar a informação do diário e da nota de venda, por exportação ou se o sistema der acesso, ligar o lote comprado à produção e às vendas seguintes, e conciliar o que foi vendido com o que foi pago.
Prateleira ou à medida
Na nossa opinião, decidem estes critérios:
- Uma espécie, poucas unidades, lotes que não se dividem: a prateleira tende a chegar, e é o que recomendamos.
- Calibragens e lotes de lota divididos com frequência: o software tem de seguir a sua forma de dividir e juntar.
- Várias atividades na mesma empresa, como produção, compra em lota e transformação, que um programa pensado só para uma deixa em folhas de cálculo.
- Bloqueios próprios, por intervalo de segurança, zona interdita ou depuração em falta, hoje confirmados à mão.
- Registo no tanque ou no barco, sem rede.
Indicadores que vale a pena seguir
- Índice de conversão alimentar por lote, comparado com o histórico da exploração para a mesma espécie.
- Mortalidade acumulada por lote e por unidade.
- Biomassa face à capacidade autorizada no título.
- Lotes bloqueados por intervalo de segurança, zona interdita ou depuração em falta.
- Margem por lote, da entrada ou da compra em lota à venda.
Num exemplo que fizemos para uma exploração agrícola com vinha, fictícia, o painel mostra o custo por hectare e por quilo de uva da campanha, com cada colheita ligada à parcela e ao lote. Numa aquicultura, pode dar a margem por lote.
Quanto custa
- Automação pontual (alerta de oxigénio ou de temperatura, aviso de prazo do título, bloqueio de lote em intervalo de segurança): a partir de €300.
- Painel com lotes, biomassa, mortalidade e índice de conversão: a partir de €500.
- Aplicação web com lotes, alimentação, tratamentos, zonas de bivalves e rastreabilidade até à etiqueta: a partir de €800.
- App mobile para registar alimentação, mortalidade e amostragens junto às jaulas ou aos tanques, também sem rede: a partir de €2.500.
- Manutenção mensal: a partir de €50.
- Ligação a sondas, balanças, diário de pesca ou plataformas de terceiros, e sistemas completos: orçamentamos caso a caso. O preço final fixa-se na proposta.
Antes de pedir propostas, veja onde perde mais tempo hoje: registos de alimentação em papel, lotes que se perdem ao dividir, etiquetas escritas à mão, interdições que ninguém viu a tempo.
O que perguntar a um fornecedor
- Como se divide e junta um lote sem perder a ligação à origem?
- Como calcula o índice de conversão e a biomassa, e com que dados?
- Como bloqueia a venda de um lote em intervalo de segurança ou de uma zona interdita?
- Como imprime a etiqueta com os campos obrigatórios a partir do lote?
- O registo no tanque ou no barco funciona sem rede?
- Como exporto os dados se mudar de fornecedor, e quais são os custos ao fim de três anos?
Por onde começar
Começamos pelo processo mais repetitivo, que aqui são em regra os lotes, com alimentação e mortalidade registadas no local, e a ligação do lote à etiqueta. A qualidade da água com sondas e as zonas de bivalves seguem depois, conforme o tipo de exploração.
Se o seu caso pede software à medida, contacte-nos: conte-nos como regista hoje os lotes e preparamos uma proposta com custo e prazo. Veja também os guias de gestão agrícola, cooperativas agroalimentares, grossistas e distribuidores e faturação eletrónica, as soluções para agricultura, as soluções para a indústria e os exemplos por setor.