Numa exploração de aquicultura ou numa unidade que compra peixe em lota, quase tudo se resume a lotes: quantos animais entraram, quanta ração comeram, quantos morreram, de que zona veio a amêijoa, para quem foi a sardinha. Quando isto vive em cadernos e folhas de cálculo, perde-se tempo e, numa inspeção ou numa retirada de produto, perde-se a prova. Este guia é para quem gere uma exploração de aquicultura (jaulas, tanques, viveiros de bivalves, pisciculturas) ou uma pequena unidade de transformação ou comércio de pescado em Portugal e hesita entre um programa de prateleira e um feito à medida. Escrevemos como quem constrói este tipo de software: o que deve fazer, que regras interessam, como decidir e quanto custa, com exemplos em vídeo de outros setores com lotes.

Um aviso sobre o âmbito. As frotas de pesca de maior dimensão e as organizações de produtores têm sistemas e exigências de certificação próprios, e o diário de pesca eletrónico tem de usar software reconhecido pelas autoridades. O que faz sentido desenvolver à medida, para uma PME, é a gestão à volta disso: lotes, rastreabilidade, qualidade e faturação.

Lotes de produção, alimentação e mortalidade

Na aquicultura, o lote é a unidade de gestão. Cada lote tem uma entrada (espécie, exemplares, peso médio, origem dos juvenis), uma unidade de produção e uma história diária. O software deve registar:

  • Alimentação por lote e por dia, com o tipo e o lote da ração.
  • Amostragens de peso, que permitem estimar a biomassa e calcular o índice de conversão alimentar (ração dada a dividir pela biomassa ganha).
  • Mortalidade diária com a causa provável, e alertas quando ultrapassa o limiar que a exploração definir para a espécie.
  • Transferências e calibragens entre unidades, sem perder a ligação ao lote de origem.
  • Despescas e vendas, que fecham o lote.
Jaulas no mar: biomassa, conversão e alertas
J-0138,2 tJ-0231,5 tJ-0322,4 tJ-0412,1 t
JaulaEspécieDias no marPeso médioÍndice de conversãoEstado
J-01Dourada105412 g1,71Normal
J-02Dourada105365 g1,68Normal
J-03Robalo150248 g1,94Conversão a subir: rever a ração
J-04Robalo15096 g1,62Oxigénio baixo esta manhã: alimentação suspensa
Como se calcula o índice de conversão na J-03Ração dada desde a entrada: 21,3 t. Biomassa ganha: 22,4 t atuais menos 11,4 t à entrada = 11,0 t. Índice = 21,3 ÷ 11,0 ≈ 1,94. A biomassa atual é uma estimativa a partir de amostragens de peso e da contagem de mortalidade.
A jaula conta a sua própria história. Cada lote tem a entrada, a ração dada, as amostragens de peso, a mortalidade e os tratamentos, e o índice de conversão compara-se com o histórico da exploração para a mesma espécie. As jaulas, os lotes e os valores do exemplo são fictícios.
Exemplo hipotético de quatro jaulas de dourada e robalo, com valores fictícios.

Qualidade da água e tratamentos veterinários

Oxigénio dissolvido, temperatura, pH, salinidade e compostos azotados (amónia, nitritos) mudam o comportamento e o crescimento dos animais. Nas produções intensivas medem-se várias vezes ao dia. O software deve guardar as medições, manuais ou de sondas, e avisar quando saem dos intervalos definidos para a espécie, por exemplo suspendendo a alimentação de uma jaula com oxigénio baixo. Costumamos ligar às sondas e aos autómatos quando o equipamento dá acesso, ou ler os dados por exportação.

Os tratamentos veterinários têm de ficar registados com o medicamento, a dose, o lote e o intervalo de segurança antes da venda, ao abrigo do Regulamento (UE) 2019/6 sobre medicamentos veterinários. O software pode bloquear a despesca de um lote enquanto o intervalo de segurança não terminar.

Licenciamento das explorações

A instalação e a exploração de um estabelecimento de aquicultura dependem de um título de atividade aquícola, previsto no Decreto-Lei n.º 40/2017 e gerido pela DGRM. O título identifica o titular e o estabelecimento, e tem regras próprias de validade e renovação. O diploma já foi alterado: confirme a versão em vigor e as condições do seu título com a DGRM. O software deve guardar o título, a espécie e a capacidade autorizadas e as datas, e avisar antes de qualquer prazo.

Os estabelecimentos que preparam ou transformam produtos da pesca precisam também de aprovação sanitária, com as regras de higiene dos Regulamentos (CE) n.º 852/2004 e n.º 853/2004 e um plano HACCP. Confirme o enquadramento da sua unidade com a DGAV. Veja também o guia de rastreabilidade alimentar e HACCP digital.

Bivalves: zonas de produção e interdições

Para os bivalves (amêijoa, ostra, mexilhão, berbigão), o local de apanha decide o destino. O IPMA classifica as zonas de produção em classes A, B e C conforme a contaminação microbiológica: da classe A pode seguir para consumo direto, da B tem de passar por depuração ou outro tratamento, da C só por transposição prolongada ou transformação. O IPMA também interdita zonas temporariamente, por exemplo por biotoxinas. O software deve ligar cada lote à zona e à data de apanha, consultar o estado da zona e bloquear o que não pode seguir.

Bivalves: zonas de produção e lotes em armazém
Zona 1 · AZona 2 · BZona 3 · BZona 4 · CTerraRia (esquemática)
Zona 1 · classe AConsumo direto
Zona 2 · classe BDepuração antes da venda
Zona 3 · classe BInterdita: biotoxinas (DSP) no mexilhão
Zona 4 · classe CTransposição prolongada ou transformação
Lotes em armazém
Amêijoa · L-B112Zona 1Pode seguir para venda
Ostra · L-B113Zona 2Só depois de depuração
Mexilhão · L-B114Zona 3Bloqueado: apanhado depois da interdição
Berbigão · L-B115Zona 4Só para transposição ou indústria
O estado da zona decide o destino do lote. O IPMA classifica as zonas de produção (A, B, C) e publica as interdições temporárias, por exemplo por biotoxinas. O software liga cada lote à zona e à data de apanha, e bloqueia a expedição quando a zona estava interdita ou exige depuração. Confirme sempre o estado atual no IPMA. As zonas e os lotes do exemplo são fictícios.
Exemplo hipotético de quatro zonas de produção numa ria esquemática, com classes, interdição e lotes fictícios.

Da lota à banca: rastreabilidade e rotulagem

Para quem compra em lota (transformadores, grossistas, peixarias, restauração), o lote da primeira venda é o ponto de partida. As regras europeias de controlo das pescas (Regulamento (CE) n.º 1224/2009, alterado pelo Regulamento (UE) 2023/2842) exigem que a informação mínima de rastreabilidade acompanhe cada lote, e, segundo as fontes que consultámos, que essa informação passe a estar disponível em formato digital a partir de 2026 para os produtos frescos e congelados, com extensão posterior a preparações e conservas. Confirme as datas e os campos na versão consolidada do regulamento e com a DGRM.

Do barco à banca: o lote e a etiqueta
1CapturaEmbarcação «Exemplo» · cercoSardinha · 420 kg · zona FAO 27.9.a
2Primeira venda em lotaLeilão, nota de vendaLote L-0917 · comprador: grossista
3GrossistaLote dividido em 3L-0917-A 140 kg · B 160 kg · C 120 kg
4PeixariaLote L-0917-BVenda ao consumidor com etiqueta
Etiqueta na banca
Denominação comercial e nome científicoSardinha · Sardina pilchardus
Método de produçãoCapturado
Zona de capturaAtlântico Nordeste, subzona IXa (FAO 27)
Categoria de arte de pescaRedes de cerco
DescongeladoNão
LoteL-0917-B
2,90 €/kg
Desde 2026, a informação do lote passa a circular em formato digitalA informação mínima de rastreabilidade de cada lote deve acompanhar o produto, e as regras novas de controlo das pescas exigem que fique disponível digitalmente ao longo da cadeia. A divisão e a junção de lotes têm de manter a ligação ao lote de origem.
Uma caixa na peixaria tem de saber de onde veio. O sistema guarda o lote da lota e as divisões seguintes, e imprime a etiqueta com a informação que o consumidor tem de ver. Confirme os campos e as datas de aplicação no regulamento e com a DGRM e a ASAE. A embarcação, os lotes, os pesos e o preço do exemplo são fictícios.
Exemplo hipotético de um lote de sardinha, da captura à peixaria, com dados fictícios.

Na venda ao consumidor, o Regulamento (UE) n.º 1379/2013 exige na etiqueta, entre outras informações, a denominação comercial e o nome científico, o método de produção, a zona de captura ou o país de produção, a categoria de arte de pesca e a indicação de descongelado, quando aplicável. O software pode imprimir a etiqueta a partir do lote, sem reescrever a informação à mão. Confirme os campos e as exceções com a ASAE.

Num exemplo que fizemos para uma empresa alimentar, fictícia, a responsável pesquisa o lote de farinha que o fornecedor reportou e o sistema mostra os 3 lotes de produção que o usaram e os clientes que os receberam, para retirar só esses. Com pescado, o ponto de partida pode ser o lote comprado em lota.

Diário de pesca e primeira venda

As embarcações abrangidas registam as capturas num diário de pesca eletrónico, que tem de usar uma aplicação aceite pelas autoridades, e a primeira venda faz-se em regra em lota, com a Docapesca no continente. Um software à medida não substitui nada disto. O que pode fazer é importar a informação do diário e da nota de venda, por exportação ou se o sistema der acesso, ligar o lote comprado à produção e às vendas seguintes, e conciliar o que foi vendido com o que foi pago.

Prateleira ou à medida

Na nossa opinião, decidem estes critérios:

  • Uma espécie, poucas unidades, lotes que não se dividem: a prateleira tende a chegar, e é o que recomendamos.
  • Calibragens e lotes de lota divididos com frequência: o software tem de seguir a sua forma de dividir e juntar.
  • Várias atividades na mesma empresa, como produção, compra em lota e transformação, que um programa pensado só para uma deixa em folhas de cálculo.
  • Bloqueios próprios, por intervalo de segurança, zona interdita ou depuração em falta, hoje confirmados à mão.
  • Registo no tanque ou no barco, sem rede.

Indicadores que vale a pena seguir

  • Índice de conversão alimentar por lote, comparado com o histórico da exploração para a mesma espécie.
  • Mortalidade acumulada por lote e por unidade.
  • Biomassa face à capacidade autorizada no título.
  • Lotes bloqueados por intervalo de segurança, zona interdita ou depuração em falta.
  • Margem por lote, da entrada ou da compra em lota à venda.

Num exemplo que fizemos para uma exploração agrícola com vinha, fictícia, o painel mostra o custo por hectare e por quilo de uva da campanha, com cada colheita ligada à parcela e ao lote. Numa aquicultura, pode dar a margem por lote.

Quanto custa

  • Automação pontual (alerta de oxigénio ou de temperatura, aviso de prazo do título, bloqueio de lote em intervalo de segurança): a partir de €300.
  • Painel com lotes, biomassa, mortalidade e índice de conversão: a partir de €500.
  • Aplicação web com lotes, alimentação, tratamentos, zonas de bivalves e rastreabilidade até à etiqueta: a partir de €800.
  • App mobile para registar alimentação, mortalidade e amostragens junto às jaulas ou aos tanques, também sem rede: a partir de €2.500.
  • Manutenção mensal: a partir de €50.
  • Ligação a sondas, balanças, diário de pesca ou plataformas de terceiros, e sistemas completos: orçamentamos caso a caso. O preço final fixa-se na proposta.

Antes de pedir propostas, veja onde perde mais tempo hoje: registos de alimentação em papel, lotes que se perdem ao dividir, etiquetas escritas à mão, interdições que ninguém viu a tempo.

O que perguntar a um fornecedor

  • Como se divide e junta um lote sem perder a ligação à origem?
  • Como calcula o índice de conversão e a biomassa, e com que dados?
  • Como bloqueia a venda de um lote em intervalo de segurança ou de uma zona interdita?
  • Como imprime a etiqueta com os campos obrigatórios a partir do lote?
  • O registo no tanque ou no barco funciona sem rede?
  • Como exporto os dados se mudar de fornecedor, e quais são os custos ao fim de três anos?

Por onde começar

Começamos pelo processo mais repetitivo, que aqui são em regra os lotes, com alimentação e mortalidade registadas no local, e a ligação do lote à etiqueta. A qualidade da água com sondas e as zonas de bivalves seguem depois, conforme o tipo de exploração.

Se o seu caso pede software à medida, contacte-nos: conte-nos como regista hoje os lotes e preparamos uma proposta com custo e prazo. Veja também os guias de gestão agrícola, cooperativas agroalimentares, grossistas e distribuidores e faturação eletrónica, as soluções para agricultura, as soluções para a indústria e os exemplos por setor.