Uma exploração pecuária vive de registos: que animais tem, de onde vieram e para onde vão, o que foi tratado e quando pode ser abatido, quanto comeram e quanto renderam. Em cadernos e folhas de cálculo, é difícil cumprir as regras e saber onde se perde dinheiro. Este guia é para quem gere uma exploração de bovinos, suínos ou aves em Portugal.

Escrevemo-lo como quem constrói este tipo de software; onde temos exemplo em vídeo, contamos o que se vê. Cobre as regras, as funções, a ligação ao Estado, prateleira ou à medida, e preços.

O setor cobre suiniculturas (de ciclo completo, de reprodução e de produção de leitões), bovinos de carne (em extensivo, com raças autóctones, ou em intensivo) e de leite, e avicultura (poedeiras e frangos de carne). Cada uma tem os seus ciclos e indicadores, e todas partilham a obrigação de identificar, registar e rastrear os animais.

O enquadramento em resumo

  • Identificação e registo: o Sistema Nacional de Informação e Registo Animal (SNIRA), da responsabilidade da DGAV, define as regras de identificação, registo e circulação de bovinos, ovinos, caprinos, suínos, aves e outras espécies pecuárias. Tem como suporte o Decreto-Lei n.º 142/2006 e a legislação europeia de saúde animal (Regulamento (UE) 2016/429 e atos delegados).
  • Bovinos: marcas auriculares oficiais, base de dados nacional, passaportes individuais e registo de existências e deslocações. Os prazos de comunicação de nascimentos, movimentos e mortes constam da legislação e das orientações da DGAV.
  • Medicamentos veterinários: o Regulamento (UE) 2019/6 exige o registo dos tratamentos e o cumprimento dos tempos de espera antes do abate ou da recolha de leite. A prescrição é do médico veterinário.
  • Bem-estar animal: há regras europeias para suínos (Diretiva 2008/120/CE) e para frangos de carne (Diretiva 2007/43/CE), e as explorações estão sujeitas a controlos.

É um resumo, e as regras têm exceções e mudam: confirme o que se aplica à sua exploração junto da DGAV, do IFAP e da sua organização de produtores. O software prepara e guarda os registos; comunicar e submeter faz-se nos portais oficiais, pelo produtor ou pelo médico veterinário.

Efetivo animal e rastreabilidade

A base do sistema é o registo individual (ou por lote, nas aves) do efetivo: identificação oficial, data de nascimento, origem (nascido na exploração ou comprado), sexo, raça ou cruzamento e estado reprodutivo. O software regista cada entrada (nascimento, compra) e cada saída (venda, abate, morte) e prepara os dados para a comunicação ao SNIRA.

  • Ligação ao SNIRA: a comunicação de movimentos é obrigatória e faz-se nos prazos legais, no portal oficial. Um software à medida pode organizar os registos, avisar dos prazos e gerar os dados no formato necessário. Ligação direta, só se a DGAV der acesso.
  • Genealogia e raças: nas raças com livros genealógicos, os registos de genealogia seguem as regras da associação de criadores respetiva.
  • Pesagens e crescimento: peso por animal e por lote, para controlar o desenvolvimento.
  • Alimentação e armazém: plano por categoria animal, consumo e custo, para calcular a conversão alimentar. Num exemplo para uma exploração agrícola fictícia, o tratamento registado desconta o produto ao armazém e o sistema avisa o que falta para sexta-feira. A ração pode seguir a mesma lógica.

Suinicultura: o ciclo da porca e a maternidade

Na suinicultura, o ritmo vem do ciclo reprodutivo. O registo de cada parto (porca, data, leitões nascidos vivos, nados-mortos e mumificados, peso médio, adoções e transferências) e da data de desmame dá os indicadores de produtividade, como os leitões desmamados por porca por ano e a mortalidade antes do desmame. As metas são definidas pelo produtor e pelo veterinário.

O ciclo reprodutivo de uma porca
Uma porcaum ciclo
Cobrição1 dia
Gestaçãocerca de 114 dias
Parto1 dia
Lactaçãoaté ao desmame
Regresso ao ciopoucos dias
O sistema marca as datas de cada fase a partir da cobrição. A duração da gestação é biológica, e as restantes (lactação, dias até ao regresso ao cio) dependem do maneio de cada exploração. Com as datas registadas, calcula a data prevista de parto e avisa antes.
Esquema simplificado, com as durações fora da gestação apenas indicativas. Os tempos reais dependem da exploração e do maneio, e o sistema usa os que a própria exploração regista.

Vacinação e tratamentos veterinários

  • Plano de vacinação: as vacinas recomendadas pelo médico veterinário para cada espécie e categoria, com as datas, os lotes e os animais vacinados, e alertas por lote e por categoria.
  • Registo de tratamentos: animal tratado, medicamento, lote, dose, via de administração, diagnóstico e médico veterinário responsável. Num exemplo para uma clínica veterinária fictícia, cada uso sai do lote com a validade mais próxima e fica ligado ao animal. Os medicamentos da exploração podem ser geridos assim.
  • Tempo de espera: o sistema calcula a data a partir da qual o animal pode ir a abate ou o leite pode ser recolhido, e bloqueia as saídas antes dessa data. O tempo de espera é o do medicamento usado.
Tempos de espera dos tratamentos antes do abate
1 out11 out21 out31 out10 novPT 123 456Vaca 209314 dias de esperaPT 123 512Novilha 187714 dias de esperaPT 123 730Vaca 21177 dias de esperaHoje
O segundo e o terceiro animal ainda não podem ir a abate. O sistema soma o tempo de espera do medicamento à data do tratamento e bloqueia o animal até esse dia. Os tempos de espera são os do medicamento usado, segundo o folheto, e os dias do exemplo são fictícios.
Exemplo hipotético, com identificações e dias fictícios. O ponto azul é o dia do tratamento, a barra vermelha é o tempo de espera, e a marca verde é o primeiro dia em que o animal pode ser abatido.

Leite, reprodução e bem-estar

  • Produção leiteira: produção por vaca e por ordenha, resultados do controlo leiteiro (gordura, proteína, células somáticas) e ligação ao equipamento de ordenha, se o fabricante der acesso.
  • Reprodução: cios, inseminações, touros ou varrascos usados, confirmação de gestação, data prevista de parto e intervalos entre partos.
  • Bem-estar e biossegurança: listas de verificação de alojamento, densidades, ventilação e água, e as medidas de biossegurança (visitas, desinfeção de viaturas, quarentena de animais novos).
  • Efetivo e superfície: registos organizados para o produtor usar no portal do IFAP. Veja o guia de software de gestão agrícola.

Avicultura

  • Lotes: data de entrada dos pintos, número, origem, peso à entrada e evolução semanal de pesos, consumo de ração e mortalidade, para detetar cedo um problema de saúde ou de bem-estar.
  • Rastreabilidade: matadouro de destino, data e peso da entrega e certificações exigidas pelo matadouro.
  • Poedeiras: produção de ovos por dia e por semana, categorias de qualidade e o código do modo de produção na rotulagem dos ovos (0, 1, 2 e 3, consoante seja biológico, ao ar livre, no solo ou em gaiola).
Peso médio de um lote de frangos face ao objetivo
0 g1000 g2000 g3000 gdia 0dia 7dia 14dia 21dia 28dia 35dia 42Objetivo da exploraçãoLote 14Dia 42: 7% abaixo do objetivoverificar ração e sanidade
Mortalidaderegistada por dia e por semana, no mesmo lote
Consumo de raçãopor semana, para calcular a conversão alimentar
Destinoo matadouro, a data e o peso da entrega
Exemplo hipotético, com um lote fictício e valores ilustrativos. O sistema compara o peso médio medido em cada semana com o objetivo definido pela exploração, e avisa quando o lote se afasta, para a causa ser investigada cedo.

Indicadores úteis

  • Conversão alimentar: quilos de alimento por quilo de peso vivo ganho. A meta depende da espécie, da fase e da exploração, e cada produtor define a sua.
  • Mortalidade por fase: maternidade, berçário e engorda nos suínos, e por semana nos lotes de aves.
  • Leitões desmamados por porca por ano, o indicador central da produtividade reprodutiva.
  • Produção de leite por vaca e por lactação.
  • Custo de alimentação por animal e por quilo produzido, o principal custo variável da produção intensiva. Num exemplo para uma exploração com vinha, fictícia, o painel compara o custo por quilo de uva com a campanha anterior. O custo por lote de animais pode sair assim.

Prateleira ou à medida

  • Uma espécie, maneio comum: se um programa de prateleira cobre o que regista, recomendamos começar por aí.
  • Várias espécies ou ciclos: suínos e bovinos, ou leite e carne, raramente cabem num programa feito para uma só.
  • Registos repetidos: o mesmo parto ou movimento é escrito no caderno, na folha e no portal.
  • Já tem programa e falta uma peça: alertas ou um painel podem juntar-se ao que existe, por API se der acesso ou por exportação.

Quanto custa

  • Automação pontual (alertas de vacinação, de tempos de espera e de prazos de comunicação de movimentos): a partir de €300.
  • Dashboard com conversão alimentar, mortalidade e produção por lote ou por animal: a partir de €500.
  • Aplicação web com efetivo, movimentos, tratamentos, pesagens, produção e rastreabilidade: a partir de €800.
  • App mobile para registar partos, pesagens e tratamentos no estábulo ou no pavilhão, mesmo sem rede: a partir de €2.500.
  • Manutenção mensal: a partir de €50.
  • Integrações com o sistema de ordenha, balanças, equipamento de alimentação, sistemas do Estado, faturação certificada e ERP, e sistemas completos com vários módulos: orçamento caso a caso. O preço final fixa-se na proposta.

A diferença importa: uma aplicação de registos e alertas é um projeto pequeno, e uma ligação automática a um sistema do Estado ou a equipamentos é um projeto à parte, que depende das interfaces disponíveis. Ao avaliar um fornecedor, pergunte: o que fica registado à mão e o que entra automaticamente? Os alertas de tempo de espera bloqueiam as saídas? Funciona sem rede no pavilhão? Como se exportam os dados para o SNIRA e para o IFAP? E onde ficam os dados, e como se exportam se mudar de sistema?

Costumamos começar pelo registo mais repetitivo da exploração e adaptar à espécie e ao maneio. Contacte-nos para uma conversa sem compromisso, com estimativa de custo e prazo. Veja também as soluções para agricultura, o guia de gestão de stocks e inventário e os exemplos por setor.