Uma empresa de cibersegurança vende confiança, e tem de a provar: que vulnerabilidades encontrou e se foram corrigidas, o que fez num incidente e a que horas, que controlos o cliente tem e com que evidências. Quando isto vive em folhas de cálculo, relatórios em Word e caixas de correio, perde-se exatamente a prova que o cliente e o auditor pedem. Este guia é para quem dirige uma empresa portuguesa de cibersegurança: serviços geridos de segurança (MSSP e SOC), testes de intrusão, resposta a incidentes ou consultoria de conformidade. Escrevemos este guia como quem constrói este tipo de software; onde temos, mostramos um exemplo em vídeo.

Há dois guias vizinhos. Se o seu negócio é sobretudo gerir a infraestrutura de TI dos clientes, veja o guia de software para suporte técnico e MSP. Se vende projetos e consultores de tecnologia em geral, o de software para consultoras de IT. Aqui, a segurança é o produto.

Testes de intrusão: do âmbito ao reteste

Um teste de intrusão tem âmbito, autorização, execução, relatório e, depois, a parte que mais se perde: a correção. O relatório classifica cada vulnerabilidade (por exemplo, com CVSS), mas ao cliente interessa saber o que foi corrigido, o que foi aceite como risco e o que continua aberto meses depois.

  • Âmbito e autorização: sistemas incluídos e excluídos, janelas de teste, contactos de emergência e autorização escrita do cliente, guardados com o projeto.
  • Vulnerabilidades como registos, não como páginas de um PDF: severidade, sistema afetado, evidência, recomendação, responsável e prazo.
  • Prazos de correção por severidade, definidos no contrato, com aviso antes do fim.
  • Reteste que fecha ou devolve cada vulnerabilidade, e risco aceite assinado pelo cliente.
Vulnerabilidades de um pentest, do relatório ao reteste
Reportada 2
PT-07Crítica · CVSS 9,8
SQL injection no formulário de pesquisaPrazo: 7 dias · faltam 2
PT-11Média · CVSS 4,3
Cabeçalhos de segurança em faltaPrazo: 60 dias
Em correção 2
PT-03Crítica · CVSS 9,1
Palavra-passe por omissão no painel de gestãoPrazo: 7 dias · ultrapassado há 3
PT-05Média · CVSS 5,9
TLS 1.0 ainda aceitePrazo: 60 dias
Em reteste 1
PT-02Alta · CVSS 8,1
Controlo de acesso quebrado na APIPrazo: 30 dias · reteste marcado
Fechada ou aceite 2
PT-01Média · CVSS 5,3
Listagem de diretórios ativaFechada após reteste
PT-09Baixa · CVSS 3,1
Versão do servidor expostaRisco aceite pelo cliente, assinado
Cada vulnerabilidade tem dono, prazo e prova de que foi corrigida. O prazo de correção vem do contrato e da severidade; o reteste fecha a vulnerabilidade ou devolve-a; o risco aceite fica assinado pelo cliente. O sistema avisa antes de o prazo acabar e mostra as que já passaram. As vulnerabilidades, as pontuações e os prazos do exemplo são fictícios.
Exemplo hipotético de um pentest a uma aplicação web, com vulnerabilidades e prazos fictícios.

As evidências de um teste (capturas, pedidos, dados a que se acedeu) são sensíveis: acesso restrito à equipa do projeto, cifra e um prazo de eliminação acordado com o cliente.

SOC e resposta a incidentes

Num serviço gerido, o SOC recebe alertas das ferramentas de deteção (SIEM, EDR, firewall), faz a triagem e trata os que se confirmam como incidentes. O software de gestão não substitui o SIEM: recebe os alertas dele, se der acesso, ou por exportação, abre casos, regista a triagem e o tratamento, mede os tempos face ao contrato e produz o relatório mensal ao cliente.

  • Casos e severidade, com o tempo de resposta acordado em cada contrato. O software usa os valores de cada contrato, sem «padrões do setor».
  • Linha do tempo do incidente, com quem fez o quê e a que horas.
  • Evidências forenses (imagens de disco, memória, registos) com hash e cadeia de custódia, para poderem servir num processo.
  • Relatório final: causa, impacto, medidas e lições.
Um incidente hora a hora, com os prazos de notificação
T0DeteçãoAlerta do EDR+2 hContençãoServidor isolado+24 hAlerta inicialAutoridade (NIS2)+72 hNotificaçãoNIS2 e CNPD+1 mêsRelatório finalCausa e medidasAgora: +51 h
09:12Alerta de cifra em massa no servidor de ficheiros, confirmadoAnalista
09:40Servidor isolado; cópias de segurança verificadas e intactasResponsável do incidente
10:05Imagem de disco e memória recolhidas; hash registado na cadeia de custódiaAnalista forense
Dia 2, 08:30Alerta inicial enviado pelo responsável de cibersegurança do clienteCliente
Notificação das 72 h daqui a 21 hHá dados pessoais afetados: o cliente tem de decidir com o encarregado de proteção de dados a notificação à CNPD. Quem notifica é o cliente; a empresa de segurança prepara a informação.
A linha do tempo do incidente é também a prova do que foi feito e quando. Os prazos da figura seguem a Diretiva NIS2 e o RGPD como exemplo; os que se aplicam a cada cliente dependem do regime e do setor, e confirmam-se no Decreto-Lei n.º 125/2025 e nas regras do CNCS. O incidente, as horas e as pessoas do exemplo são fictícios.
Exemplo hipotético de um incidente de ransomware num cliente abrangido pela NIS2, com horas fictícias.

Num exemplo que fizemos para uma empresa de informática, fictícia, um alerta de phishing num posto de um cliente abre o incidente, e a contenção e a análise ficam registadas com a hora de cada passo. Os prazos que podem aplicar-se ficam à vista. O software regista e lembra prazos; a notificação faz-se pelos canais oficiais, pelo responsável.

Regras que interessam

  • NIS2 em Portugal: a diretiva foi transposta pelo Decreto-Lei n.º 125/2025, de 4 de dezembro, que entrou em vigor a 3 de abril de 2026 e alarga muito o número de entidades abrangidas. Entre as obrigações estão medidas de gestão de riscos, um responsável de cibersegurança e a notificação de incidentes significativos ao CNCS ou à autoridade setorial. A diretiva prevê um alerta inicial em 24 horas, uma notificação em 72 horas e um relatório final em cerca de um mês. Confirme os prazos e os procedimentos no decreto-lei e na regulamentação do CNCS.
  • RGPD: se o incidente envolve dados pessoais, o responsável pelo tratamento notifica a CNPD, em regra até 72 horas depois de ter conhecimento (artigo 33.º). Normalmente quem notifica é o cliente, e a empresa de segurança prepara a informação.
  • Setor financeiro: bancos, seguradoras e outras entidades financeiras têm regras próprias de resiliência digital (Regulamento DORA, aplicável desde janeiro de 2025), incluindo requisitos para os prestadores de serviços de TIC.
  • A própria empresa de segurança trata dados de clientes e pode estar abrangida pela NIS2 como prestadora de serviços geridos de segurança. Confirme o seu enquadramento.

Este resumo vem de fontes públicas e não substitui o parecer de um jurista. As regras estão a ser regulamentadas e podem mudar.

Conformidade: controlos e evidências

Os projetos de conformidade (NIS2, ISO/IEC 27001 ou um referencial setorial) vivem de evidências: políticas aprovadas, registos de formação, relatórios de testes, atas de revisão. O software deve ligar cada controlo às evidências que o provam, com data e responsável, e mostrar o que falta para o plano de correção. Na ISO/IEC 27001, a certificação tem auditorias de acompanhamento periódicas, com evidências atualizadas em cada uma.

Mapa de controlos de um cliente, com evidências
Políticas de análise de risco
Com evidência3 evidências
Tratamento de incidentes
Com evidência4 evidências
Continuidade e cópias de segurança
Parcial2 evidências
Teste de reposição por fazer
Segurança da cadeia de abastecimento
Em falta0 evidências
Fornecedores críticos sem avaliação
Segurança na aquisição e desenvolvimento
Parcial1 evidência
Sem processo de gestão de vulnerabilidades
Avaliação da eficácia das medidas
Parcial1 evidência
Último pentest há 26 meses
Higiene informática e formação
Com evidência3 evidências
Criptografia
Com evidência2 evidências
Política revista em 2026
Recursos humanos, acessos e ativos
Parcial2 evidências
Inventário incompleto
Autenticação multifator
Em falta0 evidências
MFA só no e-mail
Com evidência4 de 10
Parciais4
Em falta2
Próxima revisãoMarço
A conformidade mede-se com evidências, não com declarações. As dez áreas seguem, como exemplo, as medidas de gestão de riscos da Diretiva NIS2; cada uma liga às políticas, registos e relatórios que a provam, com data, para o plano de correção e para a próxima auditoria. O cliente e os estados do exemplo são fictícios.
Exemplo hipotético de avaliação de um cliente face às medidas da NIS2, com estados fictícios.

O software organiza as evidências; não certifica a conformidade. No mesmo exemplo fictício, a saída de uma colaboradora do cliente abre uma lista de verificação: o técnico desativa a conta, reencaminha o email e retira o acesso remoto, com a hora de cada passo, e o cliente recebe o registo.

Sensibilização e simulações de phishing

As campanhas de phishing simulado medem quantas pessoas clicam e quem reporta, e são seguidas de formação. Os resultados individuais são dados pessoais dos trabalhadores do cliente: defina com ele a finalidade, quem os vê e por quanto tempo se guardam. Para a gestão, basta o relatório por equipa, sem nomes.

Contratos e faturação

Uma empresa de cibersegurança mistura receita recorrente (serviços geridos, SOC), projetos (testes, consultoria) e urgências (resposta a incidentes, muitas vezes fora de horas). O software deve ligar cada serviço ao contrato, ao âmbito e às horas, faturar por programa certificado e avisar de renovações. Veja os guias de gestão de contratos e de faturação eletrónica; para o cliente acompanhar casos e relatórios, um portal do cliente.

Indicadores que vale a pena seguir

  • Tempo até à deteção e até à contenção, por severidade, com as metas de cada contrato.
  • Cumprimento dos tempos contratados por cliente.
  • Vulnerabilidades fora de prazo por cliente e severidade, e tempo médio até à correção.
  • Alertas falsos positivos face ao total, por fonte.
  • Receita recorrente face à de projeto, e horas de urgência.

Programa pronto ou à medida

Recomendamos um programa pronto quando a empresa faz sobretudo um tipo de serviço, com poucos clientes. À medida faz sentido nestes casos:

  • Vende vários serviços e quer ver cada cliente num só sítio.
  • Os prazos vêm do contrato, diferentes por cliente e severidade.
  • Já usa SIEM e EDR e quer os alertas a abrir casos, se derem acesso ou por exportação. Se o SIEM já faz o que precisa, mantenha-o.
  • O cliente pede prova: linha do tempo, reteste e evidências por controlo.

Quanto custa

  • Automação pontual (relatório mensal ao cliente, aviso de vulnerabilidade a terminar o prazo, abertura de casos a partir de alertas): a partir de €300.
  • Dashboard com casos, tempos contratados, vulnerabilidades e conformidade por cliente: a partir de €500.
  • Aplicação web com projetos de teste, vulnerabilidades, incidentes com linha do tempo e mapa de controlos: a partir de €800.
  • App mobile para a equipa de urgência registar ações e evidências no local: a partir de €2.500.
  • Manutenção mensal: a partir de €50.
  • Integrações com SIEM, EDR e ferramentas de teste, portal do cliente e sistemas completos: orçamentamos caso a caso.

O preço final fixa-se na proposta. Num sistema destes, a segurança do próprio software (acessos, cifra, registos, cópias) faz parte do âmbito e do preço, e deve estar escrita na proposta.

O que perguntar a um fornecedor

  • Como regista a cadeia de custódia das evidências, com hash e acessos?
  • Onde ficam os dados dos meus clientes, quem lhes acede e como se separam?
  • Como se liga ao SIEM e ao EDR que já uso, e o que acontece se a ligação falhar?
  • Posso configurar prazos por contrato e por severidade, e avisos antes do fim?
  • Como exporto todos os dados e relatórios se mudar de fornecedor, e quais são os custos ao fim de três anos?

Por onde começar

Comece pelo que tem mais valor para o cliente e menos dependências: vulnerabilidades como registos, com prazos e reteste, e a linha do tempo dos incidentes. O mapa de controlos e as integrações com as ferramentas de deteção seguem depois.

Na Soluções à Medida começamos pelo processo mais repetitivo e ligamos às ferramentas que já usa por API, se derem acesso, ou por exportação. Contacte-nos para uma conversa sem compromisso, com estimativa de custo e prazo. Veja também as soluções para informática e tecnologia e os exemplos por setor.