Uma distribuidora de materiais de construção vende a construtoras, empreiteiros e instaladores, muitas vezes a crédito, e entrega em obra materiais pesados que exigem o camião certo à hora certa. O que separa uma operação controlada de uma operação a apagar fogos está em três sítios: as entregas, o crédito e o que fica nas obras (paletes, sacos, sobras). Este guia é para quem dirige um armazém ou uma distribuidora de materiais de construção em Portugal. Escrevemo-lo como quem constrói este software: o que deve fazer, que regras interessam, quando chega um programa pronto e quanto custa, com exemplos em vídeo onde os temos. Se o seu negócio é sobretudo balcão de bricolage ou aluguer de ferramentas, veja o de software para bricolage e aluguer de ferramentas; para a distribuição grossista de outros setores, o de software para grossistas e distribuidores.

Stock com unidades, lotes e validades próprios

Os materiais de construção não se contam todos da mesma maneira, e o stock tem de o refletir:

  • Unidades de compra e de venda diferentes para o mesmo artigo: o pavimento compra-se à palete e vende-se ao metro quadrado (com a conversão pela caixa), a areia à tonelada ou ao metro cúbico, o perfil ao metro linear.
  • Lotes de tonalidade e calibre na cerâmica: uma reposição de outro lote pode não combinar com o que já está assente, por isso a encomenda de uma obra deve ficar reservada ao mesmo lote.
  • Validades: o cimento em saco tem indicado o período em que o agente redutor de crómio VI se mantém eficaz, e argamassas, colas e impermeabilizantes têm prazos de utilização. O armazém deve sair pelo prazo mais curto (FEFO), não pela ordem de chegada.
  • Vários armazéns e localizações, com transferências e inventário por zona.

Na receção, a guia do fornecedor é conferida com a encomenda de compra, com registo de faltas, danos e referências trocadas, e só depois entra o stock.

Marcação CE e declaração de desempenho

Muitos produtos de construção (cimentos, blocos, isolamentos, cerâmica, janelas) estão sujeitos a marcação CE e a uma declaração de desempenho do fabricante. O distribuidor não a emite, mas deve verificar que o produto vem com a marcação e a documentação exigidas e poder entregá-las ao cliente ou à fiscalização. O enquadramento está a mudar: o Regulamento (UE) 2024/3110 sobre produtos de construção aplica-se desde 8 de janeiro de 2026 e substitui progressivamente o Regulamento (UE) n.º 305/2011, à medida que as normas harmonizadas são revistas. Na transição, cada família de produtos pode estar num regime ou noutro: confirme com o fabricante qual se aplica.

O papel do software é ligar a cada referência, e quando aplicável a cada lote, a declaração de desempenho em vigor, e anexá-la à guia ou à fatura quando o cliente a pede.

Entregas em obra

É na entrega em obra que a distribuidora ganha ou perde clientes. O empreiteiro quer o material cedo, a obra pode ter janela de receção curta e rua estreita, e uma palete de telhas pode exigir descarga com grua. Planear só por moradas não chega: é preciso cruzar o peso da carga com a carga útil da viatura, o equipamento de descarga e a janela da obra.

Entregas em obra: peso, grua e janela horária
Camião com grua26 t · grua 12 m
13,2 de 15,0 t
07:30–08:30Moradia em MaiaBlocos e cimento · 8,4 t
10:00–11:00Prédio em GaiaTijolo · 4,8 t
Camião de caixa aberta12 t · sem grua
6,9 de 7,5 t
08:00–09:00Loja em MatosinhosCerâmica · 2,1 t
09:30–10:30Obra em ValongoArgamassas · 3,0 t
11:30–12:30Reabilitação no PortoIsolamento · 1,8 t
Carrinha3,5 t · sem grua
1,5 de 1,2 t
08:30–09:30Moradia em ErmesindeTelhas · 1,5 t · descarga com grua
Carrinha: excesso de carga e descarga sem gruaAs telhas pesam 1,5 t para 1,2 t de carga útil e a obra pediu descarga com grua. O sistema propõe passar a entrega para a 2.ª volta do camião com grua, às 11:30, e avisa o encarregado.
A entrega planeia-se pelo peso, pela grua e pela janela da obra. Cada viatura tem a carga útil e o equipamento registados, cada obra tem a janela de receção e as condições de descarga. Os pesos, as viaturas e as obras do exemplo são fictícios; a carga útil é a do documento da viatura.
Exemplo hipotético de uma manhã com três viaturas, com cargas, obras e horários fictícios. A linha preta marca a carga útil.
  • Viaturas com carga útil e equipamento (grua, plataforma, porta-paletes) registados.
  • Obras com janela de receção, contacto do encarregado e condições de descarga.
  • Guia de transporte emitida com a carga, e prova de entrega com assinatura e fotografia no telemóvel do motorista.
  • Recolhas na mesma volta: paletes vazias, devoluções e sobras.

Os bens em circulação têm de seguir acompanhados de documento de transporte (Decreto-Lei n.º 147/2003). As empresas com volume de negócios acima de 100.000 euros no ano anterior comunicam-no à AT antes do início do transporte, com exceções, por exemplo quando o destinatário é consumidor final. Confirme o seu caso com o contabilista.

Crédito por cliente e por obra

Boa parte das vendas é a crédito, a 30, 60 ou 90 dias, e o risco concentra-se em poucas construtoras. O controlo útil não é só o saldo: é a antiguidade da dívida, a obra de onde vem e a encomenda prestes a sair.

Crédito do cliente, obra a obra
ClienteConstruções Exemplo, Lda.
Limite de crédito40.000 €
Em aberto33.500 €
Com a encomenda nova41.400 €
Limite
Por vencer · 14.200 €Vencido até 30 dias · 9.800 €31 a 60 dias · 6.100 €Mais de 60 dias · 3.400 €Encomenda nova · 7.900 €
Moradia em MaiaEm aberto: 12.400 €Em dia
Prédio em GaiaEm aberto: 15.700 €6.100 € a 31–60 dias
Armazém em ValongoEm aberto: 5.400 €3.400 € há mais de 60 dias
Encomenda retida para aprovaçãoUltrapassa o limite em 1.400 € e há 3.400 € vencidos há mais de 60 dias numa obra. Sai com pagamento, com aprovação da direção financeira, ou fica à espera.
O crédito decide-se antes de carregar o camião, e não depois. O sistema soma o que está em aberto, a antiguidade da dívida e a encomenda nova, por cliente e por obra, e retém o que passa do limite. Quem aprova e com que regra é decisão da empresa. O cliente, as obras e os valores do exemplo são fictícios.
Exemplo hipotético de um cliente profissional com três obras, com valores fictícios.

Num exemplo para uma loja de bricolage fictícia, com o crédito a 94% do limite e uma fatura vencida, a confirmação pede aprovação do responsável e segue um lembrete ao cliente. Numa distribuidora, pode aplicar-se por obra.

Paletes, sacos e devoluções

Paletes de madeira, sacos de grande capacidade e outras taras saem com o material e deviam voltar. Sem registo, ficam nas obras e a caução perde-se. Com as sobras devolvidas é igual: aceitar material sem verificar o estado nem o lote cria stock que não se vende.

Paletes e sacos retornáveis por cliente
ClienteTaraEntreguesDevolvidasSaldoCaução retidaMais antiga
Construções ExemploPalete de madeira24159108,00 €38 dias
Construções ExemploSaco big bag101000,00 €—
Telhados do NortePalete de madeira82672,00 €71 dias
Particular, obra em MaiaPalete de madeira30336,00 €12 dias
Construções Exemplo · paletes
Devolvidas (15)Ainda em obra (9)
Telhados do Norte: 6 paletes há 71 diasA regra da empresa passa a caução a fatura ao fim de 60 dias. O sistema propõe a fatura de 72,00 € e avisa o cliente antes de a emitir.
As taras retornáveis são dinheiro parado nas obras. Cada entrega regista as paletes e os sacos que saem, cada recolha as que voltam, e o saldo por cliente e por obra fica sempre visível, com a caução e a antiguidade. As regras de caução e de faturação são da empresa. Os clientes e os valores do exemplo são fictícios.
Exemplo hipotético do saldo de taras retornáveis, com cauções e prazos fictícios.

Na devolução, o sistema deve emitir a nota de crédito, repor no stock só o que está em condições e separar o defeito de fabrico para reclamar ao fornecedor.

Indicadores que vale a pena seguir

  • Rotação de stock por família, e artigos parados há mais tempo.
  • Margem bruta por família, por cliente e por obra.
  • Entregas no prazo e custo de transporte por entrega.
  • Prazo médio de recebimento e dívida vencida por antiguidade.
  • Taras por devolver e cauções retidas.

Os valores de referência dependem do mix de produtos e de clientes; compare a empresa consigo própria ao longo do tempo antes de a comparar com outras.

Programa pronto ou à medida

  • Venda ao balcão, com preços iguais para todos: recomendamos um programa de gestão comercial com faturação certificada.
  • Preços por cliente e por obra, e crédito controlado na encomenda: se o programa não os trata, uma camada à medida pode fazê-lo, ligada por API se der acesso ou por exportação.
  • Entregas com grua, janelas de obra e recolha de taras: o caso mais claro para software à medida.
  • Lotes de tonalidade e declarações de desempenho em folhas à parte: um sistema à medida pode juntá-los ao stock.

Quanto custa

  • Automação pontual (alerta de crédito no momento da encomenda, aviso de taras por devolver, lembrete de validade): a partir de €300.
  • Dashboard com margens, dívida por antiguidade, entregas e stock parado: a partir de €500.
  • Aplicação web com planeamento de entregas, crédito por obra e conta de taras: a partir de €800.
  • App mobile para o motorista com guia, prova de entrega e recolha de taras: a partir de €2.500.
  • Manutenção mensal: a partir de €50.
  • Sistema completo com faturação certificada, ligação ao ERP, à AT e a fornecedores: orçamentamos caso a caso.

O preço final fixa-se na proposta. Antes de a pedir, conte durante um mês as entregas falhadas ou mal carregadas, as encomendas que saíram para clientes em atraso e as paletes que não voltaram. É aí que se vê o retorno.

O que perguntar a um fornecedor

  • Como trata as unidades de compra e de venda e os lotes de tonalidade?
  • Como planeia as entregas pelo peso, pela viatura e pela janela da obra?
  • Em que momento verifica o crédito: na encomenda, na carga ou só na fatura?
  • Como regista as taras que saem e voltam, e as cauções?
  • Como emite e comunica as guias de transporte e liga ao meu programa de faturação certificado?
  • Como exporto os dados se mudar de fornecedor, e quais são os custos ao fim de três anos?

Por onde começar

Costumamos começar pelo processo mais repetitivo: aqui, a verificação de crédito na encomenda e o planeamento das entregas. A conta de taras e as declarações de desempenho por referência seguem depois.

Fazemos software para distribuidoras de materiais de construção, à volta do modo como já trabalham. Fale connosco para uma conversa sem compromisso, com estimativa de custo e prazo. Veja também o guia de gestão de obras, o de transportes e logística, o de faturação eletrónica, as soluções para construção e os exemplos por setor.