Uma agência de recrutamento ou uma equipa de RH interna gere muita informação ao mesmo tempo: dezenas ou centenas de candidatos por vaga, processos em várias fases, comunicação com os gestores que contratam, contratos e obrigações perante a Segurança Social. Muitas equipas gerem tudo com email, folhas de cálculo e o LinkedIn, até a desorganização começar a custar candidatos e clientes.

Escrevemos este guia como quem constrói software de recrutamento e RH e, onde temos exemplo em vídeo, mostramos o que acontece no ecrã. Cobre o que exigir do sistema, como decidir entre uma ferramenta de prateleira e uma solução à medida, e quanto custa, com atenção ao que é específico do mercado de trabalho e da legislação portuguesa.

O que torna o recrutamento em Portugal específico

Além dos desafios comuns (volume, qualidade, rapidez), há obrigações e práticas locais que o software deve refletir:

  • Comunicação de admissão à Segurança Social: nos termos do artigo 29.º do Código dos Regimes Contributivos (Lei n.º 110/2009), a admissão de um trabalhador é comunicada pela entidade empregadora através da Segurança Social Direta, em regra até ao início da execução do contrato. Só em casos excecionais, ligados a contratos de muito curta duração ou a trabalho por turnos, a lei admite fazê-la nas 24 horas seguintes ao início da atividade. Se falhar, presume-se que o trabalhador começou a trabalhar mais cedo, o que traz consequências contributivas. Um sistema que lembra o prazo e reúne os dados evita um erro caro. As regras foram sendo alteradas, por isso confirme sempre o prazo em vigor com a Segurança Social.
  • Declaração de remunerações: todos os meses a entidade empregadora comunica as remunerações à Segurança Social (DMR), tradicionalmente até ao dia 10 do mês seguinte, e está previsto um modelo automatizado a partir de 2027. Um sistema ligado ao processamento salarial pode preparar os dados, mas deve seguir o modelo em vigor, com o apoio do contabilista.
  • Vários tipos de vínculo: contrato sem termo, a termo certo, a termo incerto, prestação de serviços, estágio profissional, trabalho temporário e teletrabalho têm regras diferentes de duração, renovação e comunicação. O sistema deve controlar os prazos de renovação e avisar com antecedência. Num exemplo que fizemos para uma empresa de trabalho temporário fictícia, o contrato de utilização sai do pedido do cliente e não avança enquanto falta a descrição concreta do motivo.
  • Mercado bilingue e mobilidade internacional: quem recruta profissionais estrangeiros (tecnologia, hotelaria) precisa de processos em português e em inglês, e muitas vezes de reconhecimento de habilitações e de tratar de autorizações de residência, no caso de cidadãos de fora da UE.

RGPD e dados dos candidatos

O CV contém dados pessoais, e o RGPD aplica-se desde a primeira candidatura. O candidato deve saber para que são usados os seus dados e por quanto tempo. Para os guardar para vagas futuras é preciso o seu consentimento, e pode pedir a eliminação a qualquer momento. Sobre o prazo, a orientação habitualmente citada da CNPD é que os dados de candidatos passam a estar desatualizados ao fim de cerca de um ano, pelo que 12 meses é um ponto de partida razoável. Confirme o prazo adequado à sua realidade com o encarregado de proteção de dados ou com um jurista.

Na mesma empresa fictícia, o prazo definido pela agência é de 12 meses após a última atualização. Das três candidaturas no fim do prazo, uma é mantida pelo candidato e as duas candidaturas sem resposta são anonimizadas, ficando só a função e a zona. O sistema pode ainda confirmar a receção da candidatura com a informação RGPD e registar os pedidos de eliminação com resposta ao candidato. As coimas do RGPD podem chegar a 4% do volume de negócios anual nas infrações mais graves, embora o valor concreto dependa do caso. O mesmo cuidado com dados sensíveis aplica-se no setor da saúde, onde é ainda mais exigente (ver software para clínicas e profissionais de saúde).

Quanto tempo guardar os dados de cada candidato
Candidato contratadoOs dados passam para o processo do trabalhador
Passa ao processo do trabalhador
Não selecionado, com consentimentoFica na base de talento
Alerta ao fim de 12 meses: renovar ou eliminar
Não selecionado, sem consentimentoDados eliminados após o processo
Eliminação no fim do processo
Candidatura3 meses6 meses9 meses12 meses
Exemplo hipotético do ciclo de vida de três candidatos. O sistema aplica a regra de cada caso, avisa quando se aproxima o fim dos 12 meses e regista a decisão, para o processo ser auditável.

Funcionalidades essenciais num sistema de recrutamento

Pipeline de candidatos visual

O núcleo de qualquer sistema de recrutamento é um quadro em colunas (kanban) onde cada candidatura avança por fases: receção, triagem, entrevista, proposta e contratado ou rejeitado. Cada cartão tem o CV, as notas de entrevista, o feedback do gestor e o histórico de comunicação, num só ecrã partilhado pela equipa.

Pipeline de candidaturas

Receção3

CSC. SilvaNet-Empregos
MRM. ReisSite
JFJ. FariaLinkedIn

Triagem2

ANA. NevesITJobs
RLR. LopesLinkedIn

Entrevista2

TMT. MatosSite
LCL. CostaIndeed

Proposta1

PAP. AlvesLinkedIn

Contratado1

SRS. RamosNet-Empregos
5 canais de origem registados9 candidaturas em cursoCada cartão guarda o CV, as notas e o histórico
Exemplo hipotético, com nomes fictícios. Cada candidatura avança por fases, entra sem cópia manual a partir do canal de origem e mantém o histórico completo num único ecrã partilhado pela equipa.

Publicação de vagas e canais de origem

Uma vaga criada no sistema pode ser publicada em portais como o Net-Empregos, o Indeed, o LinkedIn ou o ITJobs (para tecnologia) e no site da empresa, sem copiar o anúncio para cada um. O que é possível automatizar depende do que cada portal permite por integração, e alguns exigem contrato ou plano pago. As candidaturas entram no pipeline e o sistema regista de onde vieram, para perceber que canais trazem os melhores candidatos.

Base de talento com prazo RGPD

Os candidatos não selecionados, mas adequados, ficam na base com etiquetas, notas e o consentimento registado, e o sistema avisa quando é altura de renovar ou eliminar. No exemplo da empresa fictícia, um cliente pede 8 operadores de armazém com formação em empilhador para segunda, 2/11, às 7h: a pesquisa cruza função, zona, disponibilidade e formação, três confirmam por mensagem e o pedido mostra os 5 lugares por preencher.

Onboarding com checklist por função

A integração de um novo colaborador envolve recolher documentação (NIF, NISS, IBAN, habilitações e, só quando a função o justifica e a lei o permite, o registo criminal), comunicar a admissão à Segurança Social, assinar o contrato, preparar equipamento e acessos e avisar o gestor. Uma checklist digital por função, com responsável e prazo em cada passo, reduz o risco de esquecer um passo com implicações legais, como a comunicação à Segurança Social.

Contagem decrescente até ao primeiro dia
Programador em teletrabalhoChecklist gerada a partir do modelo da função
✓Documentação: NIF, NISS, IBAN, habilitaçõesRH
✓Contrato para assinaturaJurídico
✓Comunicação de admissão na Segurança Social DiretaRH
✓Portátil e acessos ao email e aos sistemasIT
✓Agenda do primeiro dia enviada ao gestorGestor
✓Início de funções
Exemplo hipotético. Cada passo tem prazo e responsável, e o sistema avisa quando algo está por fazer. A comunicação à Segurança Social está destacada porque falhá-la tem consequências legais; o prazo exato deve ser confirmado com a Segurança Social ou com o contabilista.

Ausências, férias e Código do Trabalho

O Código do Trabalho define regras para férias e faltas que um sistema genérico nem sempre cumpre: o direito a 22 dias úteis de férias por ano, o tratamento das faltas justificadas e injustificadas e o seu efeito na remuneração, e o subsídio de férias, que em regra é pago antes do início do período de férias. As baixas médicas e outras ausências têm ainda comunicações próprias à Segurança Social.

Para trabalhadores em teletrabalho, regulado no Código do Trabalho com as alterações da Lei n.º 83/2021, o sistema pode guardar o acordo de teletrabalho (com os dias presenciais e remotos) e as despesas a compensar, e respeitar o dever de a empresa se abster de contactar o trabalhador fora do horário. O registo de assiduidade pode ligar ao processamento salarial. No exemplo da empresa fictícia, as horas dos trabalhadores cedidos são validadas pelo cliente no portal e as 118 horas da semana seguem para salários e faturação, se o programa der acesso, ou por exportação.

Ferramenta de prateleira ou solução à medida

Existem sistemas de recrutamento internacionais bem estabelecidos, como o Workable, o Recruitee, o Greenhouse ou o BambooHR. Se a sua empresa contrata para si, com vagas e fases comuns, a nossa recomendação é começar por um deles: costuma cobrir as necessidades. Os preços mudam e dependem do plano, por isso peça proposta atual.

Uma solução à medida para recrutamento e RH compensa quando se reconhece num destes sinais:

  • Trabalha para clientes, não só para si: recrutamento especializado por nicho, outsourcing de RH ou trabalhadores temporários. Uma ferramenta pensada para a vaga interna não tem o pedido do cliente.
  • Horas e salários escritos duas vezes: as horas em papel voltam a ser lançadas nos salários e na faturação. À medida, o sistema liga ao software que já usa, se der acesso, e prepara os dados das declarações.
  • RGPD que tem de ser auditável: por função e por processo, com o prazo de cada candidatura e quem consultou cada CV.
  • Folhas paralelas ao lado da ferramenta: o processo é tão específico que a ferramenta padrão obriga a contornos.

Se nenhum destes é o seu caso, a prateleira serve-o bem. Para consultoras de gestão que incluem recrutamento técnico, um módulo de RH ligado ao registo de clientes e à faturação de honorários evita duplicar informação. Veja o guia de software para consultoras de gestão. Para entidades formadoras, veja software para centros de formação e escolas.

Quanto custa

  • Automação pontual (confirmação automática de candidatura, alertas de prazos, lembretes de renovação de contrato): a partir de €300.
  • Dashboard de recrutamento (candidaturas por fase e canal, tempo de preenchimento das vagas): a partir de €500.
  • Aplicação web com pipeline de candidatos, base de talento e gestão RGPD: a partir de €800.
  • App mobile para gestores aprovarem candidatos e ausências: a partir de €2.500.
  • Manutenção mensal: a partir de €50.
  • Sistema completo (recrutamento, onboarding, ausências e ligação ao processamento salarial): orçamento personalizado, conforme o volume e as integrações. O preço final fixa-se na proposta.

Uma conta simples, com números hipotéticos: uma agência que preenche 80 vagas por ano e gasta 3 horas por vaga em triagem e comunicação manual tem 240 horas por ano só em administração de processo. Se metade desse tempo puder ser automatizada, são 120 horas libertadas, que a agência pode usar em entrevistas e em contacto com clientes.

Por onde começar

Começamos pelo passo que mais tempo consome à sua equipa: a triagem de CV, a comunicação com candidatos, os avisos à Segurança Social ou o onboarding. Fazemos esse primeiro, medimos o resultado consigo e só depois avançamos para o seguinte. Contacte-nos para uma conversa sem compromisso, com estimativa de custo e prazo, e receba resposta em menos de 24 horas. Pode também ver os exemplos por setor e os guias por setor.